sábado, 5 de outubro de 2013

Capítulo - 14 Gabriella Malik's POV


– Oi, mãe.
– Olá, querida. Como estão as coisas por aí?
Segurei o telefone com força, analisando a imagem refletida no espelho parcialmente embaçado do banheiro diante de mim. Engolindo em seco, concluí que minha mãe não iria querer saber como estavam as “coisas” por aqui... Pelo menos não por enquanto.
– Está tudo bem – respondi, quase não conseguindo pronunciar a última palavra devido à mordidinha que levei no lóbulo da orelha – E por aí?
– Ah, você sabe como eu me sinto nessas viagens a trabalho – mamãe suspirou, enquanto eu fazia o mesmo, só que por motivos bem diferentes - É sempre uma chatice. Mas eu vou sobreviver.
– Claro que vai – afirmei, com todos os meus esforços concentrados em manter minha voz firme e casual apesar das sensações que as mãos de Edward, viajando por baixo da camiseta que lhe pertencia e que desde nosso banho interminável cobria meu corpo, despertavam em mim, juntamente com seus lábios vagando sem rumo por meu pescoço. Lancei um olhar repreensivo a seu reflexo, que apenas sorriu de forma nada arrependida e continuou suas provocações.
– Bem, eu tenho que ir, só liguei para saber se você estava bem – ela disse, e o tom maternal pesado em sua voz teria me feito sorrir, se não fosse por todo o resto acontecendo ao mesmo tempo - Você estava tão tristinha quando nos despedimos...
Edward, ouvindo o comentário de minha mãe devido à sua proximidade ao telefone, cessou suas carícias de imediato e respirou fundo, nitidamente afetado pelo que escutou. Seus olhos não encontraram os meus, e eu reforcei a convicção em minha voz ao respondê-la:
– Eu estou bem agora, juro. Não se preocupe.
– Que bom, filha – mamãe sorriu, aliviada – Te amo. Logo estarei de volta.
– Também te amo – falei, com o olhar fixo no espelho, antes de desligar e me virar para o ser cabisbaixo atrás de mim – Ouviu o que eu disse? Estou bem agora.
– Eu sei... Mas continuo me sentindo culpado – ele suspirou, ainda evitando meu olhar – Sua mãe deve me odiar agora.
Revirei os olhos, soltando um risinho desdenhoso ao me desvencilhar de seu abraço e deixar o banheiro.
– Claro que não, seu besta! Talvez ela tenha se preocupado no começo de toda a confusão, mas quando percebeu que você estava tentando consertar as coisas, entendeu que não havia motivo pra cavar seu túmulo. Ela só quer me ver feliz, e sabe que isso é o mesmo que me querer com você... Como ela poderia te odiar?
Com uma expressão nem um pouco convencida, Edward me seguiu até meu quarto; notando sua dificuldade em deixar o assunto de lado, venci a curta distância entre nós e envolvi seu tronco com meus braços, apoiando meu queixo em seu peito para que ele não pudesse fugir de meu olhar. As pontas de nossos narizes se tocaram quando ele aproximou o rosto do meu, e meu abraço foi enfim retribuído.
– Chega de culpa entre nós – murmurei, em tom definitivo, ainda que carinhoso – Estamos juntos agora, é só o que importa. Combinado?
Após alguma hesitação, ele abriu um sorriso derrotado e assentiu, unindo nossos lábios num beijo tranquilo. Nem bem o partimos, meu celular voltou a tocar em minha mão. Franzi a testa, me perguntando quem poderia ser, e a atmosfera de felicidade que havia acabado de construir ao redor de nós dois evaporou assim que li o nome no visor.
– Quem é? – Edward indagou, com certo alarme, ao perceber a mudança em meu rosto. Me forcei a reagir, ignorando a ligação e balançando a cabeça.
– Não sei, era um número desconhecido – menti, sabendo na hora em que as palavras saíram de minha boca que ele não acreditaria. Dei-lhe as costas e me afastei alguns passos, tentando retomar a calma que me dominava há poucos segundos. Como previ, ele não se contentou com minha desculpa mais do que esfarrapada.
– Você pareceu conhecer o número, e muito bem... Era ele, não era?
Fechei os olhos pesarosamente, atirando o celular na cama à minha frente, e não respondi. De que adiantaria mentir de novo? E eu não queria dizer a verdade, assumir que ainda havia um problema a ser resolvido, quando tudo o que eu mais desejava era fingir que nada mais existia além de nós dois.
– Eu vou resolver isso agora mesmo – Edward rosnou, se aproximando em passos determinados e pegando o aparelho sobre o colchão – Chega desse inferno.
– Não! – exclamei, roubando-o de volta com rapidez – Ignore, uma hora ele vai desistir.
– E enquanto ele não desiste, você é obrigada a ficar aguentando esse terror psicológico? – ele rebateu, inconformado – Não posso deixar que isso aconteça. Ele já te fez mal demais, chega.
Quando ele fez menção de pegar o celular de mim, eu o impedi com uma mão em seu peito.
– Edward, por favor – pedi, deixando claro que já estava cansada antes mesmo de a discussão começar – Deixe pra lá. Se ele ligar de novo, prometo que te deixo atender e falar o que quiser. Mas por ora, esqueça isso.
Meus argumentos pareceram não funcionar totalmente, pois ele ainda manteve sua postura ofensiva. Insisti.
– Por favor. Eu só quero aproveitar o resto desse fim de semana com você, sem ninguém atrapalhando. É só o que eu peço.
Após respirar fundo algumas vezes, Edward fixou o olhar no meu, e o que disse fez com que um arrepio desagradável percorresse minha espinha.
– Você precisa parar de protegê-lo... Antes que sua passividade acabe se voltando contra você.
Ao mesmo tempo em que seu tom de quem sabia mais do que deveria tenha me assustado um pouco, o que mais me atingiu foi a insistência em resolver o problema imediatamente. Ele até podia suspeitar de que algo além do que minha versão da história cobria estava acontecendo, mas não fazia ideia do que se tratava, e enquanto eu não confirmasse a veracidade dos fatos que Andrew compartilhou na tarde anterior, ele continuaria no escuro. Respirei fundo, retomando o controle sobre a situação, e devolvi na mesma moeda.
– Eu não estou protegendo ninguém a não ser nós dois. É tão errado querer passar um fim de semana, um mísero fim de semana sem ter que me preocupar com nada que esteja acontecendo lá fora? Depois de três meses longe de você, eu não posso simplesmente querer esquecer todo o resto e apenas me deslumbrar com o fato de que você está aqui, e que eu posso te abraçar, te beijar, olhar pra você quando quiser? Se ser egoísta por um fim de semana e só querer você é protegê-lo, então me declaro absolutamente culpada.
Edward sustentou meu olhar exaltado enquanto eu falava, e quando terminei, sua expressão havia mudado de frustrada para levemente arrependida. Eu entendia seu impulso de afastar Andrew de uma vez por todas de nossas vidas, mas sabia que seria inútil deixá-lo tomar as rédeas da situação; por mais que o assunto a ser resolvido tivesse muito mais a ver com Edward do que comigo, eu tinha plena certeza de que se alguém deveria intermediar aquele atrito, esse alguém era eu. Tudo o que eu queria era adiá-lo ao máximo, para ter certeza de que ele era realmente necessário. Não havia motivo para levar aquilo adiante se Andrew estivesse mentindo sobre a paternidade de Ben.
– Está bem – ele assentiu, sem coragem de insistir no assunto depois de meu discurso – Só por esse fim de semana.
Agradeci com os olhos, e ele rapidamente adicionou, erguendo o indicador em minha direção:
– Mas se ele ligar de novo, eu vou atender.
Revirei os olhos, e ergui o celular diante de mim.
– Ele não vai ligar de novo – afirmei, enquanto desligava o aparelho e voltava a atirá-lo sobre a cama – Pode acreditar.
Minha atitude rebelde fez com que ele desse um sorriso de canto, ainda um tanto relutante quanto a deixar o assunto Andrew de lado, mas eventualmente eu o convenci a deixá-lo de lado, pelo menos por ora.
O celular não tocou mais durante o resto do fim de semana.

– Você tem mesmo que ir?
Edward riu contra meus lábios pelo que pareceu a milésima e ao mesmo tempo primeira vez nos últimos cinco minutos, enquanto ensaiávamos uma despedida no hall de entrada de minha casa. Estava anoitecendo e minha mãe chegaria a qualquer instante, o que significava que ele tinha que ir embora. Eu contaria a ela que havíamos nos acertado, mas não queria que ela descobrisse ao vê-lo em casa. Além do mais, ele havia insistido em voltar para a casa dos pais naquele domingo, para resolver como seria sua vida dali em diante. A hipótese de passar duas semanas em Londres e duas na casa dos pais parecia relativamente viável, embora meu coração resmungasse só de imaginar aquela mesma despedida se repetindo quinzenalmente.
– Eu volto logo, prometo – ele sussurrou entre um selinho e outro, acariciando minha cintura daquele jeito que subentendia um até breve.
– Acho bom mesmo... Se não, vou atrás de você.
– Hm, você indo atrás de mim soa bastante tentador...
Ri de sua idiotice, dando um tapa de brincadeira em seu ombro.
– Ai de você se não aparecer, Edward Styles!
Ele fez cócegas dos lados de minha barriga, e eu me contorci em seu abraço, sem conseguir me recordar da última vez em que havia me sentido tão feliz, ainda que estivéssemos nos despedindo. Mal havia me recuperado da crise de riso que ele provocara quando sua boca se aproximou de meu ouvido, e mais uma vez minhas pernas ameaçaram ceder ao peso de meu corpo.
– Estarei de volta antes que as marquinhas que deixei sumam por completo.
Subitamente sem fôlego, respirei fundo, apertando o tecido de sua camiseta em minhas mãos. Edward soltou um risinho rouco e mordeu meu lóbulo antes de se afastar, com um olhar sujo que definitivamente ficaria gravado em minha memória até o seu retorno.
– Boa viagem – suspirei, ao retomar parte da consciência – Dirija com cuidado.
– Te ligo quando chegar.
Assenti, abraçando-o pelo pescoço ao nos beijarmos uma última vez, e quando abri a porta para que ele passasse, já estava morrendo de saudade. Ao observá-lo entrar no carro e acelerar, acenando com um sorriso pesaroso, me peguei pensando: se já estava doendo agora, que estávamos bem e ele ficaria longe por apenas alguns dias, como sobrevivi todo aquele tempo sem qualquer certeza de que nos veríamos de novo?
Uma semana se passou, durante a qual nos falávamos a todo momento por telefone ou Skype. Até minha mãe conversou com ele, ao entrar em meu quarto e me pegar tagarelando diante do computador. Pelo visto, ele teria que passar outra semana por lá, já que Ben parecia ter pegado uma forte gripe e precisava de um carinho extra. Ele apareceu numa de nossas conversas virtuais, com o nariz vermelho e as pálpebras pesadas, típicos sintomas do vírus, e me deu um aceno simpático, seguido de um espirro; Edward correu para apanhar a caixa de lenços mais próxima e auxiliar o pequeno.
– Ugh, não aguento mais espirrar – ele balbuciou, um tanto grogue, e não hesitou em se aninhar no colo do pai, cochilando após alguns minutos. Enquanto Edward se ausentou para colocá-lo na cama, eu tratei de espantar a história que Andrew me contara de minha mente, temendo deixar algo indesejado transparecer quando ele retornasse.
Por falar em Andrew, não recebi mais ligações ou visitas desde que o ignorei no sábado. O que era bom, pois tudo o que eu queria dele era distância, mas ao mesmo tempo, me preocupava. Estaria ele armando alguma coisa? Ou teria apenas desistido? Para quem parecia tão determinado a levar seu plano adiante, aquele sumiço repentino parecia suspeito demais. De qualquer maneira, me encolhi em minha bolha de negação e preferi me iludir com a segunda hipótese, ainda que a primeira ainda me perturbasse quando eu me permitia considerá-la.
Parte de mim queria, precisava descobrir se o que ele havia me dito era mesmo verdade... E eu até já havia pensado em como comprovar sua versão dos fatos. O problema era a outra parte de mim, que temia que tudo desandasse se eu ousasse admitir, ainda que por um segundo, que ele estava sendo sincero, e, portanto, continuava inerte, apenas adiando o momento em que eu teria que tomar uma atitude a respeito daquela bomba-relógio.
Resumindo: foi uma semana quase feliz, a não ser pelos breves momentos de terror que minha própria mente paranoica criava.
Mais uma semana se passou, e enfim Edward retornaria. Contudo, ele apenas estaria de volta no sábado, e eu tinha um aniversário para ir na sexta-feira. Dianna, uma colega de faculdade, havia me convidado para uma pequena comemoração numa casa noturna, e permitiu que eu levasse acompanhantes. Emilly, que estava um tanto chateada com Ewan desde seu retorno da casa dos pais dele, aceitou na hora, mesmo sem conhecer a aniversariante, alegando que precisava de uma boa desculpa para encher a cara e curtir um pouco a vida. Edward me incentivou a ir, alegando que eu precisava de um escape antes da semana de provas, e me advertiu quanto à parte de encher a cara, com mais veemência do que eu esperaria – e então me lembrei de quando apaguei em seu carro, para só acordar na manhã seguinte, de calcinha e sutiã, em sua casa... De repente, sua preocupação fez bastante sentido. Prometi me comportar, e ele me fez prometer outra vez.
– É sério, eu não vou ficar bêbada! – repeti pela décima segunda vez, rindo ao telefone enquanto me arrumava para a festa na casa de Emilly.
– Ninguém vai ficar bêbado essa noite, Styles – ela reforçou, com um falso tom de seriedade, e sua risada nem um pouco convencida emanou do alto-falante do celular.
– Pra ser bem sincero, acho que você já está bêbada – ele retrucou, e ambas rimos também.
Se eu soubesse o que estava por vir, teria desistido de sair naquele exato momento e passado o resto da noite em meu quarto, rindo com Edward pelo telefone até o sono chegar e levar consigo tudo o que poderia ter dado errado naquela noite.

Capítulo - 13


– Bom dia.
Abri um olho ao ouvir o cumprimento inesperado assim que me levantei do sofá, e respirei fundo na tentativa de parecer menos exausto após a noite passada em claro.
– Bom dia – murmurei de volta, educadamente me escorando na entrada da cozinha, e enfim sua imagem entrou em foco. Gabriella estava em pé ao lado da mesa, despejando cereal numa tigela. Ao perceber meu cansaço, franziu a testa de leve.
– Te acordei? – ela indagou inocentemente – Desculpe.
Balancei a cabeça em negação, sem forças para gaguejar uma resposta, ainda mais depois de perceber suaves círculos escuros sob seus olhos. Pelo visto, não só a minha noite tinha sido péssima.
Procurei afastar tal pensamento de minha mente assim que ele surgiu. Estava cedo demais para me afundar em culpa e arrependimento.
– Não, eu... Já estava acordado – disse, mesmo que já tivesse respondido sua pergunta. A necessidade de manter meu raciocínio ocupado com qualquer tarefa era minha única esperança de não acabar balbuciando algo que não deveria ou me perder em devaneios impróprios.
Gabriella assentiu lentamente, sentando-se numa das cadeiras e hesitando por um momento, com o olhar baixo, antes de pegar a caixa de leite sobre a mesa e adicioná-lo ao conteúdo da tigela. Um breve silêncio se instaurou, até que ela voltou a erguer os olhos e sorriu fraco.
– Quer? – ela perguntou, um tanto tímida, indicando seu café da manhã – Eu disse que não ia dividir, mas era mentira.
Seu tom redimido me fez soltar um risinho baixo, porém verdadeiro. Ela realmente achou que eu levaria sua brincadeira a sério? Sempre tínhamos brigas fajutas como aquela quando...
Engoli em seco; o sorriso desapareceu rapidamente.
– Obrigado – falei apenas, e se não fosse pelo monstro rosnando em meu estômago, teria recusado sua oferta. Ocupei a cadeira à sua frente, passando no caminho por um dos armários e pegando uma tigela, e me servi sem dizer mais nada.
Apesar da postura amigável que ambos mantínhamos, algo havia mudado. A tensão entre nós havia retornado, e parecia furiosa por ter sido suspensa na noite anterior. Já não era mais tão fácil ignorar tudo o que pesava sobre nossos ombros, e o reflexo disso estava em nossas pálpebras pesadas, privadas de descanso por longas horas. O passado, nosso passado, batia incessantemente à porta de nossas consciências a cada olhar lançado, a cada palavra trocada, e nosso encontro inesperado (e frustrado) no corredor foi o divisor de águas nessa mudança brusca, eu tinha certeza disso.
Longos minutos se passaram, e nós apenas comemos, sem ousarmos desviar nossas atenções dos flocos coloridos em nossas tigelas. Terminamos nossa refeição praticamente ao mesmo tempo, e como se já não tivéssemos preocupações suficientes, resolvemos ter a mesma ideia ao mesmo tempo: suas mãos envolveram a tigela à sua frente, e meu braço se estendeu para alcançá-la, com a mesma intenção de levá-la até a pia.
Nossas mãos frias se encontraram sobre a cerâmica, e de imediato, o rosto de Gabriella ardeu, enchendo-se de cor. Meu coração bateu feito doido no peito; eu estava perfeitamente acordado.
– D-desculpe – gaguejei, meu olhar acertando o dela em cheio, ambos igualmente surpresos e embaraçados. Minha mão continuou sobre a dela, e por mais que a razão ordenasse que eu a retraísse instantaneamente, como se a tivesse exposto ao fogo, nada me parecia mais agradável do que mantê-la entre as chamas.
Ela abriu e fechou a boca algumas vezes, imóvel, antes de balançar negativamente a cabeça e baixar seus olhos para o fundo da tigela. Observei seu peito subir e descer num ritmo mais acelerado que o comum. Gabriella estava claramente lutando com todas as forças que ainda lhe restavam... E que com certeza eram mais eficientes do que as minhas, pois enquanto eu ainda mantinha meu braço esticado para tocar sua mão, ela se levantou de súbito, levando sua tigela consigo, e seguiu até a pia.
Assim que o encanto se quebrou e eu pude raciocinar novamente, uma culpa horrível me engoliu. Fechei os olhos, incapaz de acreditar que havia sido tão fraco. Eu havia imposto aquela distância, e ela fora a única de nós dois a se lembrar disso. Era inaceitável de minha parte ser tão fraco em sua presença... Mas, por maiores que fossem meus esforços, me parecia ainda mais inaceitável resistir. Cada célula em meu corpo vibrava na direção dela, me impelindo a estar sempre o mais próximo possível, e lutar contra esse magnetismo era desgastante, exaustivo demais. Eu me recordava de momentos de cansaço não apenas psicológico, mas que beirava também o físico, durante o tempo em que era seu professor. Me lembro de encerrar as aulas me sentindo drenado, esgotado por passar tanto tempo medindo cada gesto e tomando as devidas precauções para não me aproximar demais.
E agora isso... Mais do que nunca, eu precisava me manter afastado, precisava seguir minhas próprias decisões, e havia falhado. Eu realmente tinha perdido o jeito. Agora, que eu sabia o que era poder tocá-la sem restrições, não poder orbitar livremente ao seu redor era inconcebível.
Quando enfim retomei o controle, suspirei profundamente e abri os olhos, dirigindo-os a ela sem me acovardar.
– Gabriella...
Assim que ouviu seu nome, ela se sobressaltou, e seus ombros se encolheram instintivamente, como se ela estivesse no limite de seu autocontrole e qualquer ação minha pudesse ser a gota d’água. Tal movimento brusco fez com que a tigela, já envolta em espuma, escorregasse de sua mão e caísse dentro da pia. O impacto quebrou a louça com estrondo. Me levantei num pulo e corri até ela, totalmente comandado pela preocupação.
– Está tudo bem – ela avisou, numa voz trêmula, sobrecarregada de retenção, ao perceber minha aproximação – Não foi nada, está tudo bem.
Seus olhos permaneceram baixos, e seu rosto ainda queimava de vergonha por sua reação intensa. Segurei seus pulsos e inspecionei cada centímetro de pele, buscando algum machucado em meio à espuma que cobria parte de suas mãos. Levei-as até o jato de água que saía da torneira, com o intuito de enxaguar o detergente, e assim que o fiz, Gabriella se encolheu novamente, e seu rosto se contorceu de dor. Quando a água lavou toda a espuma, pude ver o corte razoável que um dos cacos havia aberto numa de suas mãos.
Respirei fundo ao perceber que ela havia se ferido, e senti minha culpa aumentar infinitamente. Porém, o filete de sangue que escorria de seu machucado, sendo imediatamente estancado pela água corrente, fez com que meu cérebro ativasse o piloto automático, e eu não me permiti pensar em outra coisa a não ser cuidar dela.
– Onde fica o kit de primeiros socorros? – murmurei, tentando soar calmo para que ela não se assustasse. Eu sabia que ela era durona quando se tratava do sangue dos outros, mas bastava um corte de papel na ponta do dedo para que seus olhos se enchessem de lágrimas.
– No banheiro, lá em cima – ela respondeu, baixo.
– Deixe a mão sob a água, está bem? – adverti, penalizado pelo tom nervoso de sua voz – Eu já volto.
Mal esperei que ela assentisse para voar escada acima; revirei o banheiro até achar o que procurava e voltei para ela, que permaneceu na mesma posição durante o meio minuto em que a deixei.
– Pronto – falei, um tanto ofegante, me aproximando e fechando a torneira – Vem.
Posicionei uma toalha de rosto sob seu braço para que ela me acompanhasse até a mesa, e dessa forma ela o repousou sobre a superfície de madeira, sentando-se no lugar que antes ocupava. Puxei a cadeira mais próxima e também me sentei para cuidar do ferimento.
– Está doendo muito? – questionei enquanto pegava o antisséptico do kit e uma bolinha de algodão, mal tirando os olhos de Gabriella, que negou com a cabeça – Fique tranquila, vai ser rápido.
Ela engoliu em seco, ciente de que o que estava por vir não seria exatamente agradável, e eu rezei para que não fosse um corte profundo. Observei o machucado enquanto embebia o algodão no remédio, e o sangue parecia ter sido contido pela água, o que era um ótimo sinal. Se ela realmente precisasse de atendimento médico, o corte provavelmente teria sangrado desde que fechei a torneira. Tal constatação ajudou a me acalmar, pelo menos minimamente.
– Respire fundo – pedi, sem conseguir evitar comentários reconfortantes diante de seus olhos já levemente chorosos. Suavemente, passei minha mão livre sob a dela, da mesma forma que havia feito por acidente alguns minutos atrás, e meu polegar automaticamente acariciou a pele úmida, tentando transmitir apoio. Ela se arrepiou, como sempre acontecia quando nossos corpos estabeleciam qualquer forma de contato físico, e nossos olhos foram compelidos a se encontrarem.
Diferentemente da primeira vez em que segurei sua mão, não nos sentíamos culpados, apenas conectados. Ela soltou o ar que involuntariamente havia prendido, relaxando visivelmente devido ao meu toque, e por um instante, eu me esqueci de tudo.
Pisquei repetidas vezes para retomar o foco, e me concentrei em limpar o ferimento, que já voltava a apresentar um leve sangramento. Seguindo meu próprio conselho, respirei fundo e pressionei o algodão com delicadeza sobre o corte. Ambos reagimos por reflexo: ela tentou retrair a mão, e eu a segurei no lugar. Gabriella mordeu o lábio, reprimindo uma reclamação, e eu continuei minha tarefa, sem pressa, porém sem estender demais a tortura. Estava quase terminando quando percebi que ela havia relaxado novamente, acostumada à ardência, e pude sentir seu olhar sobre mim.
– Você se lembra... – ela murmurou, interrompendo a frase para segurar um gemido de dor devido ao efeito do antisséptico sobre o corte – De quando me deixou dirigir sua moto... E eu fui um completo desastre?
Ergui meu olhar de sua mão para seus olhos, que instantaneamente se fixaram nos meus com uma clareza distante, nostálgica. Logo voltei a me concentrar no machucado, porém parte de mim havia sido irremediavelmente tocada pela lembrança que ela havia trazido à tona. Um sorriso fraco tomou conta de meus lábios sem prévio aviso, e eu estava tão exausto (em todos os sentidos) que me dei ao luxo de permitir que ele permanecesse ali. A sensação de reviver pequenos momentos com ela se revelara tão revigorante e necessária que em pouco tempo eu havia me tornado escravo do curto passado que tivemos.
– Por um momento eu tive certeza absoluta de que você tinha quebrado no mínimo uns dois ossos – ri baixo e distraidamente, finalizando a limpeza do pequeno ferimento com todo o cuidado que minha consciência parcialmente ativa permitia – Ainda mais quando te vi chorando feito uma criancinha.
Gabriella soltou uma risada curta, seus olhos fixos em mim, porém sem realmente me ver, como quem se transporta para outro lugar – no caso, para outro tempo. Onde tudo parecia natural, transparente... E inacreditavelmente simples.
– Doeu pra caramba, tá? – ela reivindicou, fazendo meu sorriso se alargar. Franzi a testa em contestação.
– Me poupe, você escapou razoavelmente intacta, apenas com os joelhos ralados – brinquei, deixando de lado o algodão levemente manchado de sangue, e reunindo um pedaço de gaze e esparadrapo para fazer o curativo – A moto sofreu muito mais, acredite.
– Você ficou o resto do dia trabalhando nela – Gabriella admitiu, em tom de culpa, e eu assenti, cobrindo o corte com o curativo e me certificando de que o esparadrapo havia se fixado em sua pele – E perguntando se eu estava bem ao mesmo tempo... Só pra ter certeza de que eu não havia me arrebentado.
– Como você é uma garota de sorte, ficou tudo bem – falei, atrevendo-me a encará-la e imediatamente me arrependendo. Não por encontrar seus olhos serenos e verdadeiramente felizes com as lembranças que se desenrolavam por trás deles, mas sim, por saber que em algum momento eu deveria desviar o olhar e quebrar aquela ligação entre nós, tão íntima e preciosa mesmo depois de tudo o que havia acontecido.
– Mas você me levou ao hospital mesmo assim... Por medo de alguma hemorragia interna ou algo igualmente dramático – ela continuou, esboçando um sorriso tranquilo – Não sossegou enquanto o médico não confirmou que eu estava realmente bem.
– E você cochilou na volta pra casa, depois de tanta aventura – completei, meu coração acelerando cada vez mais ao seguirmos recriando aquele dia em nossas mentes e caminhando um passo a mais na direção do precipício que nos separava, o medo de cair já se dissipando sem que algo pudesse ser feito para reativá-lo enquanto a vontade de cair nos dominava numa velocidade assustadora – Eu te carreguei até a cama, tirei seus sapatos e te coloquei pra dormir.
– Colocou mesmo – ela disse, sorrindo abertamente, seus olhos jamais abandonando os meus – Você cuidou direitinho de mim.
Senti sua mão se virar para baixo sobre a minha, fazendo com que nossas palmas se encontrassem, e as pontas de seus dedos repousaram sobre meu pulso. Uma voz distante no fundo de minha mente avisava que eu havia baixado demais a guarda e que não seria capaz de reconstruí-la a tempo, mas eu mal podia ouvi-la, não agora que outra voz reverberava em todo o meu ser. A voz que só ela conseguia fazer se manifestar dentro de mim.
– E sempre vou cuidar – sussurrei, sem saber ao certo como encontrei as palavras e o pouco de fôlego com o qual as proferi – Não importa o que aconteça.
Seu sorriso se dissipou lentamente, à medida que ela absorvia minha confissão. O vazio distante em seu olhar foi gradativamente substituído pela seriedade do agora, a noção do que nós estarmos juntos ali, em nosso próprio universo intacto de carinho, significava e podia trazer como consequência.
– Você não sabe como é bom ouvir isso – ela enfim disse, e o tom trêmulo em sua voz denunciava o que eu sempre soube, mas escolhi não considerar para conseguir continuar firme em minha decisão: eu estava sofrendo, mas ela também estava, e provavelmente até mais do que eu.
Pela primeira vez, tentei me colocar em seu lugar, de verdade, sem restrições. Tentei imaginar como seria descobrir que quem amo na verdade não é quem aparenta ser, e me ver categoricamente posto de lado, removido de sua vida, ainda que eu não tivesse certeza de como queria participar dela após toda a decepção. Me vi subitamente sozinho, sem certezas, sem motivos para ter esperança, sem sequer uma notícia, ainda que fosse para saber que tudo estava indo bem sem mim. Me vi no escuro, sem qualquer incentivo para buscar alguma luz, deixado para trás...
Me vi refletido em seus olhos, percebendo o enorme erro que havia cometido.
Meses se passaram, sem uma palavra, com tanta mágoa e tanta tristeza entre nós, e agora tudo parecia igual, se não mais intenso e real... Nós não podíamos estar errados, podíamos? Ainda que eu não fosse o melhor homem que pudesse ser, o melhor homem que ela merecia que eu fosse, aquilo que nos unia, que nos puxava de volta para o mesmo lugar de onde tão determinadamente nos afastávamos, seguindo direções opostas, não poderia ser tão condenável e ao mesmo tempo tão certo se não fosse exatamente isso. Se não fosse certo.
Nossos lábios se encontraram antes que nossas mentes pudessem articular algum outro plano para nos manter afastados.
Gabriella segurou forte em minha mão, como que buscando algo em que se apoiar enquanto caíamos do abismo, juntos. Acariciei seu rosto com a mão livre, sentindo meu corpo inteiramente eletrificado pela sensação de beijá-la outra vez depois de todo aquele tempo de distância. Ela repousou sua mão na curva de meu pescoço, deslizando-a para minha nuca e aprisionando meu cabelo entre seus dedos saudosos. Aprofundamos o beijo sem demora, famintos um do outro, e em poucos segundos, envolvi sua cintura com meu braço, puxando-a para meu colo; ela obedeceu de bom grado, acomodando-se de lado sobre minhas pernas.
Desabriguei minha mão de seu aperto e desenhei o contorno de seu braço às cegas, seguindo até seu cotovelo, para então conduzi-lo até meu ombro e fazê-lo envolver meu pescoço. Gabriella sorriu contra meus lábios, prontamente atendendo ao meu pedido e me abraçando apertado. Seu perfume invadiu minha mente, impedindo o surgimento de qualquer pensamento a não ser o que ela vocalizou, com a testa unida à minha e os olhos fechados.
– Que saudade...
Abracei sua cintura com mais força, trazendo-a para ainda mais perto de mim, e respondi com outro beijo, que pareceu durar um mísero segundo, embora estivéssemos nitidamente descabelados, com os lábios avermelhados, e sem fôlego quando o partimos. Todo o tempo perdido levaria ainda mais tempo para ser recompensado, foi o que rapidamente percebi. Não desperdicei mais um instante, e mesmo precisando desesperadamente de ar, voltei a beijá-la com toda a intensidade que meu corpo implorava para externar, depois de meses de contenção.
Como foi que sobrevivi mais de um minuto sem ela?
– Edward – ela murmurou, afastando um pouco o rosto do meu e fitando meus olhos com certo receio.
– Gabriella – chamei de volta, forjando uma seriedade que ela logo desmascarou, rindo junto comigo. Era impossível esconder minha felicidade, e sentir a dela me contagiando apenas me fazia voar mais alto. Levamos alguns segundos para nos recuperarmos de nossa idiotice, e então ela voltou a demonstrar sua insegurança. Ao falar, ela manteve os olhos baixos, brincando com a gola de minha camiseta.
– Falando sério agora... Você tem certeza de que...
Cobri seus lábios com meu indicador antes que ela completasse sua pergunta.
– Falando sério agora – respondi sem hesitar, e toquei a ponta de seu nariz – É claro que eu tenho certeza.
Um sorriso lindo surgiu em seu rosto, mas ainda não era inteiramente seguro, magnífico, como eu sabia que podia ser e queria que fosse. Sua preocupação era compreensível, e eu faria de tudo para que ela entendesse que eu sabia o que estava fazendo. Chega de sofrer pelo que não podíamos mudar; na tentativa de ser verdadeiramente digno de seu afeto, eu apenas criei novos motivos para que ela se ressentisse. Estava farto de me punir, de nos punir, por algo que nunca havia sido um problema. Ela me amava como eu era, e eu só tinha a agradecer por isso, começando desde agora, já que minha dívida era tão extensa que eu a perdia de vista.
– Eu não quero te perder de novo – ela murmurou, em tom de confissão, ainda com os olhos baixos – Então me diga de uma vez, antes que eu me iluda e seja tarde demais para voltar atrás...
Gabriella engoliu em seco antes de retribuir meu olhar e enfim dar voz ao que a preocupava.
– O que isso significa?
Afastei uma mecha de seu cabelo, abrigando-a atrás de sua orelha. As palavras que saíram de minha boca vieram diretamente da alegria pulsante em meu peito, sem filtro, sem comedimento, sem medo.
– Significa tudo. Significa que eu amo você, e que eu sinto muito por tudo que eu te fiz passar.
Ela apenas me encarou por um instante, processando o que ouviu, até que um brilho encheu seus olhos e contaminou todas as suas feições, permitindo que o sorriso que eu tanto aguardei aflorasse em seu rosto. Sorrimos um para o outro feito duas crianças em manhã de Natal; ainda que ela estivesse rindo, desconfiei quando escondeu o rosto em meu pescoço.
– Ei... – sussurrei, convencendo-a a voltar a me olhar com um carinho no queixo, e minhas suspeitas se confirmaram quando observei a excessiva umidade em seus olhos – Não faz assim.
– É por causa do machucado – ela fungou, lançando um olhar envergonhado em minha direção. Cerrei os olhos, nem um pouco convencido, e mordi sua bochecha sem aviso prévio, fazendo-a soltar um gritinho. Ela estapeou meu ombro até que meus dentes a libertassem, e voltamos a agir feito dois patetas apaixonados.
Em pensar que há alguns anos, a mera ideia de me comportar dessa forma me traria náuseas... Agora, no entanto, eu era o pateta mais orgulhoso de ser pateta que o mundo já viu. Claro que só na frente dela, e em ocasiões especiais. Patetice constante não era muito o meu estilo. Gabriella passava mais tempo me socando e mostrando a língua pra mim por meus arrotos apaixonados do que se derretendo de amores por minhas declarações poéticas.
Se bem que eu sabia fazê-la derreter rapidinho...
– Fala de novo – ela murmurou, mal podendo disfarçar sua euforia. Com um riso curto, levei minha boca até sua orelha e obedeci.
– Eu amo você.
Um suspiro quente escapou de seus pulmões. Ela apertou a gola de minha camiseta e se encolheu ainda mais em meu abraço.
– Só mais uma vez.
– Eu amo você – repeti, sentindo minhas pálpebras cada vez mais pesadas e o oxigênio cada vez mais escasso – Eu amo você, eu amo você, eu amo você...
Nossas bocas se encontraram com urgência, e minha mão se encheu com a maciez de sua coxa, praticamente toda exposta pelo shorts de seu pijama. Meu sangue borbulhou nas veias ao ouvi-la ensaiar um gemido enquanto aprisionava meu lábio inferior entre seus dentes, e minha sanidade evaporou quando ela se remexeu em meu colo, provocando um leve atrito que tirou meu fôlego. Subi meu toque e brinquei com o tecido de sua roupa, ansiando o calor que eu sabia que encontraria se apenas avançasse mais um pouco entre suas pernas.
Gabriella se empenhou em traçar um caminho torturante de beijos por minha mandíbula, seguindo para meu pescoço. Suas unhas arranharam de leve o outro lado de meu rosto em provocação, e eu beijei sua palma, sobre o curativo que havia acabado de fazer. Sorrateiramente, continuei escalando sua perna por sobre o shorts até atingir o cós, acariciando a região logo abaixo de seu umbigo com meu polegar antes de embrenhar meus dedos sob o elástico de sua calcinha. Ela soltou o ar pesadamente, descolando sua boca da parte de trás de minha orelha, e eu prossegui, descendo sem pressa e explorando cada centímetro de pele no caminho. Abaixei a cabeça ao atingir meu destino, repousando minha testa sobre seu ombro com os olhos fechados, concentrado em sentir cada reação que seu corpo oferecia aos meus estímulos. Ela respirou fundo quando as pontas de meus dedos encontraram a umidade entre suas coxas; sem exercer muita pressão, acariciei a região sensível e senti minha boca salivar ao perceber o quão intenso era seu desejo.
– Quero te beijar – sussurrei para a curva de seu pescoço, completamente refém. Gabriella trouxe sua boca até a minha, respirando com dificuldade devido aos lentos movimentos de meus dedos, e eu retribuí o beijo que ela me deu. No entanto, não era àquele tipo de beijo que eu me referia. Eu ainda estava sedento.
– Eu quero... – ofeguei, removendo minha mão de dentro de seu shorts e passando meu braço por baixo de seus joelhos; envolvi sua cintura com o outro, e levantei da cadeira, carregando-a comigo, para deitá-la sobre a mesa ao nosso lado, empurrando todo o resto.
Seus quadris estavam alinhados com a beirada do móvel, suas pernas pendiam uma de cada lado de meu corpo, e ela se esparramou sobre a madeira escura, com o olhar fixo no meu. Minhas mãos deslizaram por sua cintura, levando junto consigo em sua subida a camiseta do pijama, e meus lábios encontraram sua barriga. Ela arqueou as costas em resposta à minha carícia, removendo a primeira peça de roupa e expondo seus seios. Levei meus beijos até eles, com toda a paciência e dedicação do mundo. Gabriella mantinha os lábios entreabertos, e por entre eles uma sinfonia de gemidos baixos escapava a cada toque de minha língua em sua pele. Uma vez livre da parte de cima de seus trajes, minhas mãos passaram a trabalhar na parte de baixo, empurrando os dois itens restantes de vestuário enquanto a distraía com beijos e leves mordidas.
Assim que a despi por completo, espalmei minhas mãos ao lado de sua cabeça e olhei fundo em seus olhos. Meu rosto pairou a centímetros do dela quando enfim finalizei minha frase:
Te beijar.
Mantive contato visual conforme erguia meu tronco e me sentava numa das cadeiras atrás de mim, bem diante dela. Percorri o interior de suas coxas com minhas mãos e as afastei, umedecendo meus lábios discretamente para então saciar meu desejo e beijá-la exatamente onde queria.
Seus dedos se embrenharam em meu cabelo de imediato, acompanhados de um longo gemido. Continuei acariciando suas pernas conforme minha língua se movia, por vezes em círculos, por vezes, verticalmente, ora rápido, ora devagar. Quanto mais eu provava dela, mais eu queria; não havia melhor sabor no mundo. Meu corpo inteiro queimava de vontade, e eu somente não dirigi minhas mãos ao volume incômodo em minhas calças porque estava concentrado demais em fazê-la se contorcer sobre a mesa sem nem sequer ter removido uma peça de roupa.
Sua respiração tornou-se ainda mais irregular após algum tempo, e só para provocá-la, interrompi minhas atividades e ergui um pouco o rosto para observá-la: seu corpo estava recoberto por uma fina camada de suor, o que apenas o tornava ainda mais convidativo, e suas feições denunciavam o alto nível de excitação no qual ela se encontrava, à beira do abismo. Imediatamente percebendo minha pausa, ela me olhou; deslizei uma mão por sua barriga, e Gabriella entrelaçou seus dedos nos meus. Retomei meu trabalho, e em poucos minutos ela atingiu o ápice, apertando minha mão com força.
Relutante, permaneci onde estava, permitindo que ela recuperasse o fôlego e recolhendo o resultado de meus esforços. Somente parti o beijo quando ela ergueu o tronco da mesa. Levantei meu rosto até o dela, recostando-me na cadeira, e enxuguei meus lábios com as costas da mão, com os olhos vidrados. Sua boca e bochechas estavam vermelhas, e seu cabelo desgrenhado denunciava claramente o evento nem um pouco ortodoxo que havia se passado. Ela estava nua, sentada diante de mim, com as pernas abertas e a respiração irregular; talvez fosse a saudade, talvez fosse o efeito sempre inebriante de levá-la ao orgasmo, talvez fosse verdade – não importava.
Eu nunca a tinha visto mais linda. E mais minha.
Com um sorriso sujo, ela esfregou um dos pés no lado externo de meu joelho, e aos poucos o apoiou por inteiro sobre minha coxa. Continuamos nos encarando, numa espécie de transe, e ela continuou seu trajeto, parando ao atingir minha virilha com a ponta do pé. Levei minha mão até sua panturrilha, acariciando a pele quente, prestes a me render. Por mais que eu amasse dominá-la, em nossas disputas silenciosas por poder, eu geralmente jogava a seu favor, minha única estratégia tendo como objetivo vencer a mim mesmo e deixar que ela conquistasse o controle. Eu não me importava com a derrota, pois sabia que a sanção seria tão incrível quanto a vitória, se não ainda mais.
Gabriella havia vencido assim que coloquei os olhos nela; eu já estava mais do que acostumado a perder.
– Sabe o que é curioso? – ela indagou, ficando de pé – Como é que, vez ou outra, eu me encontro completamente nua, enquanto você ainda está completamente vestido?
Ergui uma sobrancelha, observando-a cercar minhas coxas com as suas e sentar em meu colo, com as mãos sobre meus ombros.
– Isso é uma cena recorrente entre nós? – rebati, fingindo não me recordar das inúmeras outras vezes em que tal situação havia ocorrido, mas com especial carinho, da primeira vez, na noite do baile de primavera; ela assentiu, mordendo o lábio – Hm... E isso te não te agrada?
Ela suspirou pensativamente, descendo as mãos por meu peito e abdômen e parando ao atingir a barra de minha camiseta, enquanto as minhas ocupavam seu lugar de costume em sua cintura.
– Pra ser bem sincera, eu não tenho do que reclamar – ela respondeu, livrando-me da peça de roupa sem cerimônias – Mas eu prefiro muito mais quando o jogo está equilibrado.
– Ah, é? – provoquei, antes de segurá-la pela cintura e puxá-la para mim – Fico grato pela consideração.
Suas unhas se fincaram em meus bíceps em resposta ao contato direto de nossos corpos. Seus mamilos se enrijeceram contra minha pele, me fazendo ver estrelas; o mero fato de estar abraçado a ela sem barreiras entre nós já bastava para me tirar do sério.
Já ficou óbvio que eu era pirado por aquela garota ou preciso elaborar mais um pouco?
– Se eu fosse você, não comemorava antes do tempo – ela retrucou, beijando preguiçosamente o canto de minha boca – Eu nunca disse que igualaria o placar... Pelo menos não tão cedo.
Gabriella percorreu meus lábios com a ponta de sua língua, levando suas mãos até o botão de minha calça, e eu senti calafrios descerem por minha espinha ao me dar conta de que aquilo realmente estava acontecendo. Todas as noites, desde que ela deixou a casa de meus pais pela primeira vez, eu imaginei aquele momento em minha mente, quando enfim sentiria seu toque de novo. Fechei os olhos, implorando por misericórdia, e respirei fundo ao sentir o botão abrir, aliviando parte da pressão que começava a me sufocar. O zíper seguiu o mesmo caminho, permitindo que as pontas de seus dedos passeassem por parte de meu membro por sobre a cueca. Ela depositou mais um beijo no outro canto de meus lábios e manteve o rosto colado ao meu, de forma que seus cílios fizessem cócegas em minhas pálpebras. Tudo em mim parecia tão quente que eu temia uma queda de pressão a qualquer instante – não por meu bem-estar, mas pela interrupção indesejada que isso causaria.
Contrariando minhas expectativas, ela levou suas mãos de volta para meus ombros, abandonando meus jeans exatamente onde estavam, e iniciou um movimento de vai e vem com seus quadris, para frente e para trás. Tal processo originou uma fricção que, juntamente com toda a encenação bastante fiel do ato em si, bastou para me fazer jogar a cabeça para trás em poucos segundos.
– Porra, Gabriella... – suspirei, perdendo o controle e me agarrando à sua cintura ondulante na tentativa de não estragar o momento antes da hora. Seu corpo reproduzia todos os detalhes ao se afastar e voltar a se aproximar do meu: suas coxas se retesavam e relaxavam sobre as minhas, seus seios roçavam em meu peito, seu rosto subia e descia a cada investida imaginária... Era real demais, e eu só tinha tirado a blusa.
Aquela pirralha estava acabando comigo.
Como se todo o resto não bastasse para me enlouquecer, ela começou a gemer perto de meu ouvido, deixando-se levar pelo efeito de seus movimentos em seu próprio corpo. Mordi meu lábio com força, respirando fundo e de olhos fechados, imaginando o que seria de mim quando eu realmente estivesse dentro dela. Se já me encontrava naquele estado com uma mera simulação...
– Eu preciso... – murmurei, levando uma de minhas mãos até seu cabelo e prendendo algumas mechas em meu punho. Não consegui terminar a frase, pois já estava atingindo o limite de meu autocontrole, mas não precisei. Ela também precisava.
Numa sequência de movimentos desajeitados e apressados, removemos o resto de minhas roupas; porém havia mais um problema.
– A camisinha – ela disse, assim que nos vimos livres de qualquer vestimenta – Eu já volto.
Rosnei todos os xingamentos que conhecia ao vê-la correr para fora da cozinha e subir as escadas, levando uma das mãos à cabeça e puxando os cabelos para trás. Lancei um olhar constrangido à situação entre minhas pernas, nem um pouco satisfeita com a interrupção, e fechei os olhos, tentando recuperar um pouco do fôlego e frear os pensamentos impuros que bombardeavam minha mente. Se ela demorasse a voltar, eu acabaria terminando o trabalho sozinho, num ato totalmente involuntário.
Poucos segundos se passaram até que ouvi passos apressados se aproximando, e se a imagem de Gabriella correndo até mim, sem roupas, rasgando a pontinha da embalagem da camisinha com os dentes não fosse trágica, teria sido cômica. E muito excitante em algum momento posterior, sem dúvida alguma.
Ela retomou sua posição em meu colo, habilmente lidando com o preservativo, e ambos soltamos suspiros aliviados que mais pareceram risinhos torturados quando tudo estava certo. Acariciei suas coxas, inclinando a cabeça em sua direção e roubando um rápido, porém intenso beijo para refrescar nossas memórias. Num movimento simples e fácil, tão natural quanto respirar, eu estava dentro dela.
Unimos nossas testas, ambos com os lábios entreabertos em êxtase, e permitimos que nossos corpos absorvessem todas as sensações que explodiam dentro de nós. Uma vez recuperada do furor inicial, ela voltou a se mover sobre mim, da mesma forma que fazia por sobre minhas roupas. Seus braços envolveram meu pescoço, apoiados em meus ombros para ajudá-la a tomar impulso, e minhas mãos recaíram sobre sua cintura, guiando seus movimentos; sem mais floreios, transamos no meio da cozinha.
O calor que me preenchia se tornou ainda mais insuportável adicionado ao calor que vinha de dentro dela. Seu corpo me abraçava, por dentro e por fora, transformando-se numa nova atmosfera sem a qual eu sufocaria e que ao mesmo tempo me levava cada vez mais para perto de uma espécie de morte. Eu não me julgava capaz de suportar toda a intensidade que ela compartilhava comigo a cada som rouco que escapava de sua garganta, a cada sopro de ar quente que acarinhava meu rosto, a cada espasmo interno de seu corpo, que eu também sentia. Naquele momento, que pareceu se desenrolar em velocidade reduzida, eu tive certeza de que se eu estava doente, ela era a cura, e de que se ela era o meu fim, ela também era o meu começo.
Ela era tudo, e se eu tivesse que viver sem ela mais uma vez, nada me restaria. Nem eu mesmo; tudo ficaria com ela.
Apesar do ritmo acelerado de nossos corpos, levei meus lábios até os dela, e coloquei neles tudo o que tinha. Apertei sua cintura com força, colocando na ponta de meus dedos tudo o que tinha. Abri meus olhos por um instante, bem a tempo de observá-la atingir o clímax novamente, e coloquei neles tudo, tudo o que eu tinha.
Era tudo dela, de qualquer forma. E eu não queria que fosse diferente.
Meu ápice veio logo em seguida, acompanhado de um beijo demorado no pescoço. Gabriella descansou a cabeça em meu ombro, mantendo o rosto escondido onde seus lábios ainda repousavam vez ou outra, e eu acariciei suas costas, aos poucos retornando do estado de graça ao qual ela havia me elevado.
– Lembre-se de colocar algumas camisinhas no kit de primeiros socorros a partir de hoje – ofeguei quando fui capaz de raciocinar claramente outra vez, após beijar seu ombro.
– As desvantagens de transar em lugares não convencionais – ela riu, com a voz serena – Nada com o que já não estejamos acostumados.
Sorri ao ouvir seu comentário, aliviado por poder finalmente revisitar nossas memórias sem ser instantaneamente esmagado por toda a culpa e sensação de desmerecimento. Tudo parecia tão ridículo de minha parte... Tentar mudar quem eu era, tentar adotar uma nova postura, tão radicalmente diferente da minha, por um erro do passado que havia retornado para acertar as contas e que era completamente desvinculado do resto. Ela esteve certa o tempo todo. Eu precisava viver por mim, não pelos outros, nem mesmo por ela – por mais que tal noção me parecesse um tanto difícil de aceitar, já que meu amor por ela vinha sendo grande parte de mim há alguns anos, e ainda que um dia ele deixasse de existir, eu simplesmente não conseguia me ver desligado de sua vida. Ainda que no futuro eu deixasse de amá-la, por qualquer motivo que fosse, eu sentia em meus ossos que continuaria fazendo o que me fosse possível por ela.
– A propósito, obrigada... – ela murmurou, e sua voz tão próxima me trouxe de volta à agradável realidade – Pelo curativo.
Peguei sua mão e a ergui até meu rosto, beijando a ponta de cada dedo com calma e, por fim, o esparadrapo em sua palma.
– Sempre que precisar, é só chamar – brinquei, fitando nossos dedos entrelaçados.
Gabriella afastou o rosto de meu pescoço para me olhar, com uma sobrancelha erguida em tom provocativo.
– Pode deixar – ela disse, abrindo um sorriso malicioso – Eu vou chamar.

Capítulo - 12 Edward's POV


– Boa noite.
Minhas palavras vieram acompanhadas de um sorriso, em parte grato, em parte pesaroso. Meus olhos seguiram o caminho que ela fez, do sofá até as escadas, e dali até sumir de vista, e no instante em que não pude mais vê-la, meu peito ardeu de saudade. Não sei por quanto tempo fiquei observando os degraus, talvez rezando para que ela reaparecesse, talvez rezando para que ela nunca o fizesse.
Algumas horas haviam se passado desde minha chegada, preenchidas por algumas conversas tímidas, porém revigorantes. A tensão havia se dissipado consideravelmente, permitindo que nos comportássemos como velhos amigos, o que não era de todo inédito entre nós, mas foi uma boa surpresa, considerando o contexto em que nos encontrávamos.
Gabriella sempre conseguia me surpreender da melhor forma possível. Isso eu aprendi a jamais subestimar.
Quando enfim pude desgrudar os olhos das escadas, eles caíram sobre o canto do sofá no qual ela havia se encolhido por boa parte da noite, e de onde ela conversou comigo, riu comigo, existiu comigo. O nível de saudade que eu sentia era insuportável, beirando o patológico. E não era apenas no aspecto amoroso.
Sim, eu a amava. Ao posicionar meu travesseiro sobre o local antes ocupado por ela e então repousar minha cabeça sobre ele, nenhum outro pensamento restava em minha mente a não ser esse: eu a amava. Demais, até demais. E era exatamente por amá-la tanto que eu não me importei com o fato de não poder tocá-la, como sempre adorei fazer. Era estranho demais poder conversar com ela de uma forma tão tranquila e não poder puxá-la para mim, acomodá-la em meu colo (onde ela já admitiu, mais de uma vez, que prefere ficar, ao invés de simplesmente ao meu lado), ou então deitar minha cabeça sobre o dela e deixar que seus dedos bagunçassem meus cabelos... Tudo era muito estranho quando havia uma barreira invisível entre nós.
E eu era o único responsável pela existência dela.
Respirei fundo, tentando lutar contra os sentimentos ruins que já começavam a se aglomerar em meu peito. Ela mal havia me deixado sozinho e eu já estava estragando tudo.
Forcei meus olhos a se fecharem, e com algum esforço, consegui relaxar um pouco. Dormir seria impossível, estando tão próximo dela num lugar onde não havia absolutamente ninguém a não ser nós dois.
Assim que meu cérebro chegou a essa conclusão, meus olhos se abriram repentinamente, e meu coração deu um salto, quase me escapando pela boca.
A situação era familiar demais.

Flashback – cerca de um ano atrás

– Gabriella?
Franzi a testa, sem tirar os olhos do trânsito quase inexistente. Estávamos nos afastando cada vez mais da casa de Kelly, e ela ainda não havia me dado seu endereço. Eu podia ter sido um canalha de marca maior e o descoberto por meios nem um pouco éticos há muito tempo, mas eu sabia que quando soubesse onde ela morava, acabaria cometendo uma loucura (por exemplo, encheria a cara uma noite qualquer e acabaria soltando o verbo para a primeira pessoa que aparecesse à porta depois que eu tocasse a campainha).
Já estava começando a me arrepender de ter contido minha curiosidade; decidi tentar novamente.
– Malik?
Parei em um semáforo fechado, e aproveitei a oportunidade para me utilizar de métodos mais incisivos para fazê-la responder. Virei seu rosto em minha direção, com todo o cuidado do mundo (ela bem que seria capaz de arrancar minha mão com os dentes se percebesse que eu a estava tocando), e confirmei minhas suspeitas.
Gabriella estava dormindo.
– Pirralha maldita – resmunguei, já prevendo a dor de cabeça que toda aquela bagunça me traria. E era tudo culpa da Smithers. O que aquela idiota tinha na cabeça ao convidar a Malik para uma das suas festinhas demoníacas?
Eu não sabia quem estrangular primeiro: Kelly, por ser tão irritante, ou Gabriella, por estar tão... Inconsciente.
A palavra não soava muito convidativa. Inúmeras vezes me peguei imaginando como seria tê-la em meu carro, sentada no banco do carona, cantarolando alguma música que eu não conhecia junto com o rádio ou então apenas olhando pela janela, com os cabelos bagunçados pelo vento, falando uma coisa ou outra com os pés apoiados no painel.
Nenhuma das imagens que criei em minha mente fértil chegavam ao nível doentia que a realidade diante de mim apresentava.
– Gabriella – chamei mais uma vez, dando leves tapinhas em seu rosto, mas foi em vão. A única reação que recebi foi um gemido baixo quando meu dedão esbarrou no canto de sua boca, e foi então que percebi a pequena mancha de sangue na extremidade de seu lábio inferior. A imagem da cena que encontrei no banheiro da casa de Kelly, onde imaginei que seu pequeno machucado tivesse sido criado, assombrou minha mente; se eu visse aquele pivete de novo, ele nunca mais veria qualquer outra coisa a não ser meu punho colidindo com sua cara.
Respirei fundo para dispersar o álcool ainda correndo em minhas veias, e fixei meu olhar na rua deserta adiante. Minha consciência, ou pelo menos a parte sóbria dela, alertava que eu estava prestes a tomar a decisão mais errada de toda a minha vida, mas meu cérebro levemente entorpecido não me permitia enxergar nenhuma outra solução.
Então, quando o sinal abriu, eu acelerei o carro e a levei para minha casa.
É, eu sei. Que puta cagada. Mas o que mais eu poderia fazer àquela hora da noite?
Ligar para Andrew não era uma opção. Era culpa de sua idiotice que Gabriella estava naquele estado, nada mais justo que deixá-lo de fora da jogada. Além do mais, ele era um idiota, e acabaria estragando tudo; um professor envolvido naquele rolo já era suficiente, ela não precisava de dois para tornar todo o acontecimento ainda mais difícil de explicar.
Pegar seu celular e ligar para sua mãe ou para sua melhor amiga? A mera hipótese de falar com uma delas me deu calafrios. Eu acabaria sendo crucificado, e com a sorte que eu tinha, Gabriella acabaria se esquecendo de tudo que aconteceu, e colocaria a culpa em mim por ter se embriagado tanto, ou algo igualmente inconcebível.
De qualquer forma, ela me odiaria ainda mais. Então por que não escolher a opção que mais me favorecia?
Não me entenda mal, eu não pretendia tirar proveito de sua vulnerabilidade. Eu jamais faria algo do tipo, nem mesmo com ela. Só de pensar no assunto meu estômago se revirava de horror. Não... Um dia, eu não só a levaria para minha casa muitíssimo acordada, como também por sua própria vontade.
Hoje, eu só queria cuidar dela. Amanhã, quando recuperássemos os sentidos definitivamente, ela poderia pensar em como se explicar para os outros, e eu pensaria em como me explicar para ela.
Cheguei sem demora ao meu prédio, e assim que estacionei, deixei o veículo e o circundei para abrir a porta do passageiro. Gabriella continuava apagada, dormindo como se não houvesse amanhã. Por um instante, me perguntei se seria necessário levá-la a um hospital, mas bastou checar brevemente seus sinais vitais para perceber que ela apenas estava num estágio profundo de sono; a experiência de passar por isso inúmeras vezes nos anos de faculdade também ajudou a me tranquilizar.
– Gabriella? – tentei pela trigésima segunda vez, chacoalhando-a pelos ombros, e novamente, não funcionou. Esfreguei o rosto com as mãos, tentando entender como aquela noite havia virado de cabeça para baixo tão rapidamente, e, com o foco retomado, passei meus braços por baixo de seu corpo, um por sob seus joelhos, outro por sua cintura.
Como se tivesse esperado por isso desde que adormecera, ela envolveu meu pescoço com seus braços preguiçosamente, e soltou um suspiro contra meu pescoço. Precisei de um momento para me recuperar do choque (e, claro, da explosão de pensamentos impuros) que sua reação inconsciente causou, e só então pude me mover. Virei na direção do elevador, empurrei a porta do carro com o calcanhar e ativei o alarme, fazendo malabarismos para não derrubá-la no processo. Sorte dela que eu era bom em manusear mulheres, ainda que eu preferisse as minimamente lúcidas.
Não sei como sobrevivi à respiração serena dela em meu pescoço, mas de alguma forma, consegui me manter são durante o trajeto vertical do elevador. Assim que as portas se abriram, caminhei até o sofá, e a deitei sobre ele. Na penumbra do apartamento, pude ver que ela agora tinha a testa levemente franzida; afastei uma mecha de cabelo de seu rosto, o mais suavemente possível, e ela abriu os olhos. Meu coração quase saltou pela boca ao vê-la acordada. Ela não esboçou reação, apenas me encarou, confusa, por alguns segundos.
Quando enfim me reconheceu, um certo pânico preencheu seus olhos, e eu logo tratei de tranquilizá-la.
– Shh, está tudo bem – sussurrei, afastando minhas mãos dela em sinal de paz – Você está segura agora.
Gabriella piscou lentamente, processando minhas palavras, e, ao contrário do que eu previa, não ofereceu resistência à minha explicação. Pelo contrário, um alívio sincero pareceu percorrer seus traços, e se eu já não estivesse sóbrio o suficiente para distinguir a realidade do imaginário, teria certeza de que o sorriso agradecido que ela me deu foi pura alucinação.
– C-como se sente? – gaguejei, pego totalmente de surpresa por aquela demonstração (ainda que alcoolizada) de confiança. Ela podia nem sequer sonhar em admitir tal fato, mas agora eu tinha certeza de que ela não me via mais como o monstro que um dia eu fui em sua mente. Somente esta descoberta já foi suficiente para que eu não me arrependesse de tê-la trazido para casa comigo. Acontecesse o que acontecesse, ela havia me revelado algo muito importante, e nada do que me dissesse no dia seguinte mudaria isso.
Gabriella não respondeu, apenas gemeu baixo e levou uma das mãos à parte superior da barriga. Não precisei de mais explicações para entender o que se passava.
– Respira fundo – pedi, voltando a carregá-la e correndo até o banheiro. Ajudei-a a se sentar ao lado do vaso sanitário, e assim que levantei a tampa, ela despejou todo o conteúdo de seu estômago nele, entre breves acessos de tosse e alguns resmungos de mal-estar. Segurei seu cabelo enquanto ela se ocupava em se livrar do álcool em seu sistema, e a única coisa que se passava em minha mente era: aposto que nenhum de seus namorados já havia feito o que eu estava fazendo naquele momento.
Ela definitivamente não sabia o quão prestativo eu podia ser.
Gabriella tossiu um pouco, erguendo a cabeça, e eu já a aguardava com uma toalha de rosto úmida, que cuidadosamente passei sobre sua boca (como já era de se esperar, ela reclamou quando limpei a pequena mancha de sangue do canto de seus lábios). Seus olhos se abriram gradativamente enquanto eu o fazia, e assim que olharam nos meus, percebi que ela estava lacrimejando.
Puta merda. Golpe baixíssimo detectado.
– Eu sinto muito – ela murmurou, com a voz enrolada, e segurou meu pulso com uma das mãos, deslizando o polegar sobre minha pele.
Minha garganta se fechou, minha mente decretando situação de emergência diante de tamanha demonstração de consideração dirigida à minha pessoa. Não por muito tempo; bastou que ela repetisse mais uma vez suas desculpas para que ficasse nítido que algo estava errado.
– Andrew, eu sinto muito.
Encarei suas lágrimas com distanciamento, agora que sabia a quem sua causa realmente deveria ser atribuída. Com um suspiro tenso, desviei o olhar, retraindo minha mão com facilidade de seu carinho iludido.
Incapaz de dizer qualquer coisa, apenas fiquei de pé e a ajudei a fazer o mesmo. Envolvi seus braços com minhas mãos ainda trêmulas, puxando-a para cima logo em seguida, e ela não hesitou em se apoiar em meus ombros quando enfim se levantou do chão. Com o orgulho ferido por ter meus esforços negligenciados por sua embriaguez, dei descarga e fechei a tampa do vaso, buscando mil e uma formas de não encará-la.
Suas mãos me impediram assim que terminei essas tarefas, virando meu rosto em sua direção com urgência.
– Não fique bravo, por favor – ela choramingou, me forçando a ver o desespero em suas pupilas – Eu não queria ter ido...
Seu lábio inferior tremeu ao fim da frase, anunciando mais lágrimas, e sem aviso prévio, Gabriella me abraçou com força, afundando o rosto em meu pescoço e chorando feito uma criancinha. Meu corpo inteiro entrou em estado de alerta ao sentir o dela implorando para se moldar a ele; minhas pálpebras subitamente pesavam o triplo do normal, e respirar era praticamente impossível. A parte sombria de minha mente ainda levemente ébria ocupava-se em imaginar todo tipo de imagem pervertida, fazendo com que meu sangue se apressasse em correr para uma determinada região de minha anatomia.
No entanto, a parte sensata de minha consciência, sóbria desde que pus meus olhos em Gabriella naquela maldita festa, agiu rapidamente e tomou a única decisão possível.
Afastei meu pescoço de seu rosto, ao mesmo tempo em que minhas mãos empurravam sua cintura para longe de mim, com o máximo de cuidado para não transmitir a mensagem errada – tanto para o cérebro dela, quanto para o meu.
– Vamos – falei, quando enfim recuperei minha voz – Você precisa descansar.
– Não... – ela resmungou, resistindo ao meu distanciamento, e pronunciou suas próximas palavras ao pé de meu ouvido – Eu preciso de você.
Todo o ar de meus pulmões escapou por meus lábios entreabertos num milésimo de segundo. Fechei os olhos com força, lutando contra o turbilhão de pensamentos impuros que surgiam a cada segundo diante deles, pensamentos há muito recorrentes em minha imaginação. Meus dedos se fecharam ao redor de sua cintura, involuntariamente, e ela completou sua teimosia com chave de ouro.
– E eu sei que você também precisa de mim.
Assim que sua voz atingiu meus tímpanos, uma de suas mãos percorreu toda a extensão de meu tronco e somente parou ao atingir o volume vergonhoso em minha calça. Meus olhos se arregalaram de imediato ao sentir seus dedos contornarem minha ereção, acompanhados de um beijo demorado em minha mandíbula. Por pouco meus joelhos cederam à excitação absurda que me golpeou sem aviso prévio. Era surreal demais para ser verdade.
Quantas vezes me imaginei naquela exata situação, com seu corpo enroscado no meu, sussurrando indecências em sua voz inocente, me descobrindo com cada toque de seus dedos curiosos, causando as reações mais intensas e irresistíveis... Não podia ser real. Por mais que eu desejasse que fosse, com todas as minhas forças, eu sabia que não era possível. Não agora, não tão de repente.
E não era.
Andrew, eu sinto muito.
Andrew.

Não era eu o objeto de suas afeições. Não era ela, aquela Gabriella, o objeto das minhas.
Aquela ainda era a Gabriella dele. E, se isso tudo não bastasse, ela não tinha a menor consciência do que estava fazendo.
Não era real, e com certeza não era certo.
– Não – falei com seriedade, desvencilhando-me dela e segurando-a pelos pulsos – Chega.
– Por favor... – ela pediu, tentando se aproximar novamente, mas eu a impedi – Me deixe compensar tudo isso. Prometo que vou me esforçar.
Franzi a testa, enojado com o que ela dizia. Ela estava se sentindo culpada por ter ido à casa de Kelly (provavelmente sem contar a Andrew, o que era bem a sua cara) e agora que supostamente, em sua cabeça, ele havia descoberto tudo, ela queria se desculpar com sexo?
Aquela definitivamente não era a Gabriella que eu conhecia.
– Pelo amor de Deus, pare com isso – pedi, horrorizado com sua total ausência de senso. Ainda bem que eu estava naquela maldita festa, ou então sabe-se lá o que teria sido dela naquela noite. As possibilidades que surgiram em minha mente causaram calafrios.
Gabriella apenas riu, desistindo de me tocar, e eu mal tive tempo de soltar um suspiro aliviado antes que ela levasse suas mãos até os botões de seu vestido e começasse a abri-los, um por um, bem na minha frente.
Minha determinação falhou por um instante, atordoada pela hipnose que cada novo botão aberto exercia sobre mim. Gabriella deixou o vestido cair a seus pés, espiando minha reação (ou falta de) com um sorrisinho vitorioso.
Se ela soubesse quantas vezes eu já havia imaginado o que ela escondia debaixo de suas roupas... Quantas vezes eu havia desenhado cada contorno que agora se revelava diante de mim, exceto os que suas roupas íntimas ainda cobriam. Minhas mãos ardiam para explorá-los, minha boca salivava para beijá-los, minha mente enlouquecia só de pensar que eu realmente a estava vendo seminua.
Se ela soubesse o quanto doeu ter que desgrudar meus olhos de seu corpo e deixar a razão governar minhas ações, me fazendo conduzi-la até o interior do box logo atrás de si e ligar o chuveiro, para que a água fria com a qual eu estava tão acostumado nas horas difíceis a atingisse em cheio e, quem sabe, a fizesse retomar parte do controle...
Gabriella protestou, pega totalmente de surpresa, mas logo se conformou em bater o queixo sob o jato gelado, recusando-se a me olhar. Ela já me odiava mesmo, e me odiaria ainda mais na manhã seguinte... Não custava nada dar a ela mais um motivo pra detestar minha existência.
O fato de me forçar a suportar a visão dela tremendo de frio em meu banheiro, encharcada, só de calcinha e sutiã, sem sequer conseguir pensar em curtir a situação, não a tornava exatamente minha pessoa favorita naquele momento.
Quando seus lábios já adquiriam um leve tom arroxeado, desliguei o chuveiro e hesitei, testando sua reação. Ela apenas ergueu os olhos até os meus, e como uma criança arrependida da travessura que havia feito, esperou, com os ombros curvados e os braços firmemente agarrados ao próprio corpo, até que eu pegasse uma toalha e a estendesse em sua frente. Gabriella rapidamente veio até mim e se encolheu quando o tecido felpudo entrou em contato com sua pele gélida; sem conseguir ignorar a cara de cãozinho perdido dela, esfreguei seus braços com as palmas de minhas mãos, numa tentativa desajeitada de aquecê-la.
Sem dizer mais uma palavra sequer, ela permitiu que eu a levasse até o quarto de hóspedes, e se sentou sobre a cama com a expressão sonolenta.
– Está com sono? – perguntei, sem saber ao certo de que outra forma agir. Gabriella assentiu, cabisbaixa. O banho forçado pareceu ter surtido efeito. Pelo menos ela não estava mais tirando a roupa; o pouco de juízo que ainda me restava agradecia profundamente.
– Pode deitar.
Ela levou alguns segundos para processar minhas palavras, mas obedeceu. Levantei as cobertas para que ela se acomodasse sob elas, e assim que a cobri, seus olhos se fecharam e ela adormeceu.
Ou pelo menos foi o que pensei, ao soltar um suspiro aliviado e caminhar até a porta do quarto, sem sequer ousar olhar por sobre meu ombro e arriscar uma atitude impulsiva.
– Estou com sede – ela gemeu, no instante em que pisei fora do cômodo. Ainda no piloto automático, voei até a cozinha e em poucos segundos retornei com um copo d’água. O
cupei a beirada do colchão ao seu lado, e ela se sentou, pegando o copo de minhas mãos e bebendo todo o conteúdo em grandes goles. Ofegante, ela me devolveu o copo vazio, e, de olhos fechados, se inclinou em minha direção, encostando os lábios úmidos em meu ombro e virando a cabeça de um lado para o outro lentamente, até secá-los na manga de minha camiseta. Então, ela voltou a se deitar, e apagou de vez.
Levei alguns minutos para conseguir me recuperar do contato inesperado e levantar, para então cambalear até a cozinha e colocar o copo sobre a pia. Se eu sobrevivesse àquela noite, sobreviveria a qualquer coisa.
No caminho para meu quarto, espiei pela fresta do cômodo ocupado, vendo-a ainda imóvel, do mesmo jeito que a havia deixado. Engoli em seco, revirado demais internamente para entender o que de fato havia acontecido nas últimas horas, e especialmente, nos últimos minutos. Exausto, segui até o banheiro e recolhi o vestido de Gabriella, ainda abandonado no chão. Encarei a peça de roupa, sentindo minha cabeça (e outra parte de meu corpo) latejar. Por que tudo não podia simplesmente se acertar? Por que tinha que ser tão difícil? Por que eu não conseguia pensar na imagem dela se despindo diante de mim sem me lembrar de que ela ainda pertencia a outro, e que nem mesmo no estado calamitoso em que se encontrava, completamente fora de si, ela cogitava a hipótese de querer estar comigo?
Eu realmente tinha feito tudo errado.
Sem um pingo de dignidade restante, levei seu vestido comigo até minha cama, e durante a noite, que passei praticamente toda em claro, sonhei acordado com o dia em que ela enfim ocuparia o espaço vazio em meu colchão.

Fim do flashback

Revisitar aquela noite não foi tarefa fácil. Me peguei com o coração acelerado ao recordar a dor da rejeição inconsciente de Gabriella, ainda mais reforçada por sua reação no dia seguinte, ao acordar. Não foi à toa que bati o carro naquela manhã; depois de ter passado por toda aquela turbulência, era o efeito colateral mínimo que eu deveria esperar.
E lá estávamos nós novamente. Ela não estava bêbada dessa vez (amém), e não havia um terceiro elemento entre nós, mas a situação de certa forma se repetia: cada um dormindo em um canto (ou pelo menos tentando), sozinhos e mal resolvidos.
Por que continuava sendo tão difícil?
Incapaz de permanecer deitado, fiquei de pé e subi silenciosamente os degraus, disposto a nem sequer olhar para a porta do quarto de Gabriella em meu trajeto até o banheiro. Quem sabe jogar um pouco de água gelada em meu rosto ajudasse a acalmar os ânimos.
Encarei meu reflexo um tanto corado no espelho, e me concentrei em normalizar minha respiração um tanto errática antes de abrir a torneira e lavar o rosto. Minhas mãos tremiam levemente, por um motivo que eu conhecia muito bem: abstinência.
Travei o maxilar, disposto a resistir bravamente, e deixei o banheiro. Eu podia fazer isso. Já havia conseguido uma vez, era perfeitamente capaz de fazer de novo. Mas dessa vez, não havia nenhum impedimento. Ela estava lúcida. Ela estava em casa. E principalmente...
Ela queria estar comigo.
Minha confiança esmoreceu significativamente ao me imaginar entrando em seu quarto depois de todos aqueles meses e me juntando a ela na cama... Eu a acordaria com um beijo no pescoço e um braço ao redor de sua cintura; ela sorriria, surpresa ao me encontrar ali, como num sonho bom.
Como eu queria...
Meus pés me levaram até a porta entreaberta de seu quarto, e em meio à escuridão de seu interior, o que vi me alarmou de imediato, por ser totalmente inesperado.
A cama estava vazia. Gabriella não estava lá.
– Aí está você.
Pulei de susto ao ouvir uma voz atrás de mim, e me virei em sua direção, deparando-me justamente com quem procurava. Ela sorria calmamente para mim, com um copo d’água nas mãos, e ao examinar meu rosto, ainda que encoberto pela penumbra, franziu a testa.
– O que houve?
– N-nada – balbuciei, respirando fundo para me recuperar do susto e da vergonha por ter sido pego no flagra espiando seu quarto – Eu só... Vim ver se estava tudo bem.
Gabriella reprimiu um risinho esperto, perfeitamente ciente de minha desculpa esfarrapada, e assentiu.
– Está tudo bem, sim... Só fiquei com sede.
Assenti de volta, sem conseguir manter contato visual. Eu era um idiota.
– Entendi.
Um silêncio tenso caiu sobre nós, que eu não fazia ideia de como quebrar, até que ela suspirou e disse:
– Então... Boa noite.
– Boa noite – respondi prontamente, ansioso por uma oportunidade de correr para longe daquela situação absurdamente embaraçosa, mas ao mesmo tempo, incapaz de me mover, ainda tomado por um desejo monstruoso de puxá-la para mim e fazer todas as coisas que tanto desejei na noite que havia assombrado minha memória há alguns instantes. Meu coração parecia prestes a explodir, batendo freneticamente em meu peito, e o ar parecia me faltar ao tê-la tão perto, vestindo apenas um de seus pijamas ridiculamente adoráveis. Notando minha hesitação, ela também permaneceu imóvel, como se compactuando com minha vontade de jogar tudo para o alto e apenas seguir o que cada centímetro de nossos corpos gritava.
No entanto, tudo que fiz foi caminhar na direção oposta a seu quarto, retomando o trajeto que fiz ao subir as escadas e rapidamente chegando ao sofá, onde passei o resto da noite me amaldiçoando por tê-la deixado sem sequer um beijo de boa noite.
Gabriella não veio me procurar. Ela tinha todos os motivos do mundo para não fazê-lo. Eu tinha todos os motivos do mundo para me odiar por isso.
Por que tudo não podia simplesmente se acertar?

Capítulo - 11

O resto da tarde passou como um borrão. Me recordo apenas de chegar em casa com mil pensamentos colidindo em minha mente, subir as escadas depressa e me atirar na cama, para somente me levantar de novo dali a algumas horas. Em meio a todo o choque e a todas as perguntas ainda não respondidas, das quais somente uma possuía resposta possível, fui capaz de reunir forças para ficar de pé e rastejar até o banheiro. Um longo banho ajudaria a clarear minha mente, a relaxar, e principalmente, a me fazer sentir limpa após toda a sujeira que Andrew havia despejado sobre mim ao revelar suas mentiras do passado.
Tudo ainda era demais para assimilar.
Se ele realmente estava dizendo a verdade, se ele realmente é pai de Ben, então... Eu havia sido culpada pelo que Edward estava enfrentando ao decidir lidar com a suposta paternidade e teria que enfrentar ao descobrir que tudo aquilo era uma farsa, tramada pela própria prima e atestada como verdade pelo melhor amigo.
Por mais que eu soubesse que também havia sido enganada, assim como todo o resto da família, e não tinha como sequer imaginar que tamanho absurdo poderia ter acontecido, por mais que soubesse que em momento algum agi de má fé, que apenas segui o que acreditava ser certo... A culpa ainda pesava sobre meus ombros.
E se Andrew estivesse falando sério? E se fosse mesmo verdade? Como contar a Edward?
Ele perderia o controle, eu sabia que sim. Se eu ainda o conhecia tão bem quanto imaginava, seria difícil conseguir contê-lo, impossível impedi-lo de atacar os responsáveis por tamanha traição e pelos anos de culpa reprimida. Ele ficaria arrasado.
Talvez me odiasse por tê-lo feito repensar suas decisões...
Outro fator preocupante era que, sem dúvida, ele havia se apegado a Ben, pelo menos um pouco, e o menino, a ele, também. Ainda que meu coração doesse por Edward, minha maior preocupação era o estado em que aquela criança ficaria diante de tamanha confusão. E a culpa era toda de Emily e Andrew.
E, em parte, minha.
Já havia anoitecido quando enfim saí do chuveiro, ainda pior do que quando havia entrado. Ao menos, uma certeza agora eu tinha: eu precisava saber a verdade, e tomar a decisão certa dessa vez, qualquer que fosse o preço a pagar por isso.
Estava enrolada na toalha, procurando por um pijama em meu guarda-roupa, sem energia nem para acender as luzes, apesar da relativa escuridão, quando a campainha tocou. Meu coração quase parou ao imaginar quem poderia ser àquela hora, e imediatamente pensei em Andrew. O medo que agora acompanhava sua presença se instaurou em meu peito com força total, ainda que eu tivesse plena noção de que precisava dele para comprovar a veracidade de sua história; me esgueirei até a janela, tentando ver quem estava parado à porta sem ser vista, e meus joelhos quase cederam ao identificar o visitante inesperado.
Sem qualquer outro sentimento a não ser o alívio e a surpresa imensos que corriam em minhas veias, desci correndo os degraus, e com a mesma pressa, abri a porta, deparando-me com o principal assunto de minhas preocupações parado sobre meu tapete de boas-vindas.
Nossos olhares se encontraram de imediato, e permaneceram conectados até o instante em que ambos nos demos conta de que um de nós estava parcialmente nu. Engoli em seco, morrendo de vergonha por ter me esquecido completamente daquele detalhe assim que o reconheci da janela do quarto. Edward, por sua vez, apenas deixou seus olhos viajarem por minhas pernas expostas, e rapidamente pigarreou, voltando seu foco para meu rosto, agora furiosamente vermelho.
– Oi – ele murmurou, claramente distraído com a recepção indecente.
– Oi – ofeguei de volta quando consegui encontrar minha voz. Alguns segundos de silêncio caíram sobre nós, durante os quais nos encaramos intensamente, com incontáveis emoções ardendo em nossos olhos, até que consegui retomar o controle e agir.
– Entra.
Edward hesitou um pouco antes de obedecer, com o maxilar travado, feito um morto de fome diante de um banquete do qual não lhe era permitido desfrutar.
– Eu vou... – comecei, apontando para o andar de cima, e antes que eu pudesse me envergonhar ainda mais, ele assentiu com veemência, indicando que havia entendido perfeitamente, e que concordava em gênero, número e grau com minha decisão de me vestir.
Corri de volta para meu guarda-roupa, colocando as primeiras peças comportadas que encontrei e penteando meus cabelos ainda úmidos depressa. Eu estava longe de estar apresentável, mas não havia tempo a perder; ele me esperava na sala, provavelmente tentando não se lembrar das partes de meu corpo que não esperava ver, e eu não pretendia desperdiçar um segundo de sua presença.
Voltei ao andar de baixo, ainda me xingando mentalmente, e o encontrei sentado no sofá, olhando fixamente para a parede oposta e parecendo um tanto transtornado. Não pude deixar de sentir pena, e ao mesmo tempo, uma vontade incrível de rir.
– Sinto muito... Por... Você sabe – falei, anunciando meu retorno, e ele me lançou um breve olhar contido antes de negar com a cabeça.
– Tudo bem.
Não, não estava tudo bem. Estaria tudo ótimo se eu ainda estivesse seminua, e você também. Estaria tudo maravilhoso se eu não tivesse estragado tudo ao impeli-lo a se redimir por sua negligência e assumir a paternidade de uma criança que poderia não ser sua.
Resumindo: definitivamente, não estava tudo bem.
– O que você está fazendo aqui? – indaguei, tentando esquecer de uma vez por todas o infeliz incidente de alguns minutos atrás – Aconteceu alguma coisa?
Edward adotou a mesma postura, e a seriedade em seu rosto me preocupou.
– Aconteceu – ele respondeu, implacável – Emilly me ligou.
Arregalei levemente os olhos, incrédula por ela ter sido capaz disso, e ao mesmo tempo frustrada por não ter previsto que ela seria capaz disso.
– Eu já devia saber – resmunguei, cobrindo parte do rosto com uma mão – Ela te contou sobre Andrew, não foi?
– Sim, porque sabia que você não o faria.
Franzi a testa, estranhando sua atitude ressentida.
– E por que eu deveria te ligar? Para colocar ainda mais problemas em sua cabeça, problemas que, pra começar, nem são realmente problemas, e que não lhe dizem respeito?
– Gabriella, como você pode pensar dessa forma? – ele respirou fundo, inconformado com minha teimosia – Mas é claro que você deveria ter me ligado, assim que aquele idiota foi embora! Eu também tenho uma parcela de culpa por seu retorno, e uma parcela generosa, por sinal. Além do mais, não percebe o risco que ele pode representar, ainda mais estando sozinha pelo resto do fim de semana?
Bufei, irritada com sua preocupação excessiva. Por que Emilly teve de contar tudo a ele? O retorno de Andrew deveria ter ficado em segredo até que eu descobrisse a verdade. No momento certo, eu contaria tudo a ele, mas não antes de certificar a veracidade dos fatos.
– Pelo amor de Deus, ele só quis me assustar! – rebati, frustrada por ter que esconder tanto dele – Você não precisava ter vindo até aqui para isso, eu vou ficar bem.
– Você não entende, não é? – ele insistiu, dando um passo em minha direção – Ele perdeu completamente a noção de tudo. Ele te seguiu! Se isso não grita perigo para você, quase estoura meus tímpanos! O Andrew que eu conhecia jamais faria uma coisa dessas... Sabe-se lá do que mais ele é capaz!
Sua irritação crescente e despropositada estava começando a me afetar. Se ao menos eu pudesse explicar o que realmente estava acontecendo... Mas ainda não era o momento. Não podia ofendê-lo daquela forma, contando uma história tão mirabolante e possivelmente falsa. Além do mais, se ele já estava surtando com o que sabia, se sequer sonhasse que me encontrei com Andrew a sós, acabaria tendo um colapso nervoso no meio da sala.
– O que você acha que ele vai fazer? Invadir minha casa e me sequestrar? Faça-me o favor!
– Eu já entrei aqui sem ser convidado, o que o impede de fazer o mesmo?
– Edward, seja sensato, pelo amor de Deus! – pedi, avançando dois passos em sua direção – Ele não vai me machucar.
– Como pode ter tanta certeza? – ele indagou, recusando-se a ceder – Eu fui amigo dele por anos e não sei o que esperar dele. E você, sabe?
– Não, eu não sei! – exclamei, cada vez mais tomada pelo calor da discussão – Mas tem uma coisa que eu sei, e é o número de telefone da polícia. Se ele sonhar em tentar qualquer coisa absurda, vai parar na delegacia na mesma hora!
Edward sustentou meu olhar com determinação, ainda disposto a rebater meu argumento, mas após alguns segundos, apenas suspirou profundamente e abaixou a cabeça, balançando-a negativamente em seguida.
– Me desculpe – ele murmurou, depois de um breve silêncio – Eu não queria... Eu não queria brigar com você.
Minha raiva momentânea se esvaiu por completo ao ser pega de surpresa por sua mudança de atitude. Ele só estava preocupado comigo... Tão preocupado que dirigiu por horas só para ter certeza de que eu estava bem. Uma pontada de remorso surgiu em meu peito.
– Nem eu – confessei, ainda que meu tom guardasse resquícios de irritação em meio à compreensão.
Edward ergueu a cabeça novamente, examinando minha expressão.
– Como você está?
Dei de ombros, sem saber o que dizer. Havia sido um longo e péssimo dia, e eu adoraria acordar daquele terrível pesadelo muito em breve e descobrir que tudo continuava como antes de Andrew reaparecer, pelo menos.
– Vou ficar bem – disse apenas. Obviamente, não foi o bastante.
– Claro que vai – ele concordou, esboçando um sorriso encorajador – Mas enquanto não fica, pode falar comigo.
Suspirei profundamente, tentando com todas as minhas forças não me deixar atingir pelo cuidado que ele demonstrava ter comigo. Já era difícil o bastante estar perto dele sem poder tocá-lo, será que ele não percebia que era ainda pior ser paparicada por ele na situação em que estávamos?
Será que ele poderia parar de me fazer querer tanto um mísero abraço dele, por mais breve que fosse, só para ajustar o eixo de minha vida e colocá-lo de volta no lugar certo?
– O que você quer que eu diga? – perguntei, sentindo meus olhos arderem e minha visão ficar gradativamente embaçada – Que foi horrível? Que eu preferia nunca tê-lo conhecido? Que eu realmente estava começando a achar que ele havia desistido de infernizar a minha vida, mas infelizmente, nem tudo acontece de acordo com a nossa vontade?
Ele apenas observou, com o olhar penalizado, enquanto eu desmoronava aos poucos diante dele. Os meses de distância estavam começando a me afetar, e o stress inesperado que Andrew causara havia triplicado o peso da carga sobre meus ombros.
– Eu só queria que ele sumisse, que me esquecesse de uma vez por todas... Só de me lembrar do quanto eu o amei, do quão importante ele foi para mim... E saber que foi tudo em vão... Dói muito. Já se passaram meses, mas eu nunca realmente lidei com a ideia de que ele provavelmente nunca me amou, que eu provavelmente nunca signifiquei nada para ele... Como eu posso ter me enganado tanto? Como ele pode ser esse... Monstro?
Escondi meu rosto, agora coberto por algumas lágrimas nervosas que não consegui conter, em minhas mãos, para me recompor, e senti que ele se aproximou, ainda em silêncio. Respirei fundo algumas vezes, de olhos fechados, até que seus braços me envolveram e ele me puxou para perto de si. Mal pude acreditar que aquilo realmente estava acontecendo; somente quando seu perfume me atingiu, constatei que, de fato, era real. Edward estava mesmo ali, e estava me abraçando.
– Eu sinto muito – ele murmurou, acariciando o topo de minha cabeça com uma das mãos – Por tudo.
Permaneci imóvel em seu abraço apertado, incapaz de reagir. Ele sabia exatamente o quanto Andrew havia me ferido, sabia que eu precisava de apoio, ainda que insistisse em recusar sua ajuda. A saudade era esmagadora demais, cruel demais para que eu ousasse me mover e correr o risco de voltar à realidade hostil, agora que eu estava blindada por seus braços ao meu redor. Desejei que aquele momento durasse para sempre.
Por um período, que me pareceu imensurável, de tempo, permanecemos abraçados, nos comunicando muito melhor através do silêncio e do toque do que por meio das palavras e da distância, como sempre havia sido. Quando nos afastamos, meus olhos já estavam secos, e eu havia recuperado o controle sobre minhas emoções, embora ainda tivesse certa dificuldade para raciocinar devido às mãos dele, que descansavam sobre meus braços, como se ele temesse que eu pudesse quebrar se me soltasse.
– Você não está sozinha – ele disse, em tom carinhoso, com um sorriso (por mais maravilhoso e doloroso que fosse admitir isso) completamente apaixonado – Eu vou estar sempre do seu lado, aconteça o que acontecer.
Resistindo bravamente a todos os impulsos que me imploravam para beijá-lo e esquecer todo o resto, assenti, sorrindo fraco, porém sinceramente.
– Obrigada – falei, com a voz rouca.
Nossos olhares permaneceram intensamente ligados por um instante, antes de o dele cair para meus lábios, e ali se demorar brevemente antes de retornar para o meu.
– Deixe-me ajudá-la – ele pediu, sério – Você não tem que lidar com isso sozinha.
Desviei os olhos, temendo que ele encontrasse algo que não deveria neles.
– Como você pretende me ajudar?
– Eu posso procurá-lo... Tentar convencê-lo a desistir dessa ideia maluca de te perseguir. Por favor, qualquer coisa. Só não me deixe assistir a esse pesadelo sem poder fazer nada para acordar.
Ponderei sua súplica, sem saber o que dizer. Não havia nada que ele pudesse fazer por mim no momento; tudo o que eu precisava era provar que Andrew estava sendo sincero, e então ele poderia saber.
E então, estaríamos livres.
– Confie em mim. Vai ficar tudo bem.
Ergui meu olhar até seu rosto novamente, e tudo que vi foi uma relutância pesarosa.
– Quando me disse isso pela última vez, você acabou desacordada no meu carro – ele observou, determinado a me fazer reconsiderar – Não pretendo cometer o mesmo erro.
Engoli em seco, lembrando-me de minha conversa a sós com Andrew em seu apartamento. A mera lembrança do pavor que senti naquele dia me causou arrepios.
– Por favor – pedi, encarando-o com firmeza – Eu agradeço a sua preocupação, mas... Deixe-me lidar com ele. Eu sei o que estou fazendo.
– Por favor, digo eu – ele insistiu, praticamente de joelhos – Não me peça o impossível.
– Edward... – suspirei, repousando uma de minhas mãos sobre seu peito para reforçar meu desejo de ter minha vontade respeitada – Você não pode lutar minhas batalhas por mim. O que ele mais quer agora é me assustar, e se eu permitir que você aja em meu lugar, só estarei encorajando-o a continuar. Não vou dar esse gostinho a ele.
Enquanto eu falava, ele fechou os olhos, concentrando todos os seus esforços em controlar sua angústia.
– Eu não confio nele... Não vou conseguir te deixar sozinha sabendo que ele pode estar lá fora nesse exato momento tramando algo contra você.
Ainda que sua voz estivesse mais contida, o desespero latente em suas palavras era nítido. Sem saber mais como lidar com sua fixação, sugeri a única solução que satisfaria ambos os lados.
– Então não me deixe sozinha.
Edward franziu a testa, me olhando como se eu tivesse criado uma segunda cabeça.
– O quê?
– Fique... Pelo menos por hoje. Você já dirigiu demais. Não posso deixar que saia daqui nesse estado.
Deixei que minhas palavras fossem assimiladas antes de completar meu pedido, fazendo o que sabia fazer de melhor: usando suas palavras contra ele.
– Quando te deixei dirigir com a cabeça tão cheia pela última vez, você acabou num hospital com um curativo na testa. Não pretendo cometer o mesmo erro.
Por mais tenso que estivesse, ele não pôde deixar de soltar um risinho fraco ao se lembrar da ocasião a que me referia – assim que finalmente conseguiu esboçar alguma reação, claro. Meu pedido havia sido inesperado demais, até para mim, mas agora que a possibilidade existia, eu faria de tudo para que ele aceitasse meu convite. Tê-lo por perto, nem que por algumas horas, era uma chance que eu não podia desperdiçar. Ele considerou minha oferta pelo que pareceu uma eternidade, até enfim se manifestar.
– Se isso for só um plano seu porque, no fundo, está com medo de que Andrew invada sua casa da mesma forma que eu fiz, e pretende me torturar para revelar como entrei... Fique sabendo que levarei este segredo para o túmulo – ele respondeu, com um sorriso divertido.
Revirei os olhos, empurrando-o de leve e rindo também.
– Vou entender isso como um sim – falei, lutando para conter a alegria gigantesca que só crescia dentro de mim ao vê-lo dar um sorriso sincero pela primeira vez em três meses e meio, um sorriso só para mim.
– Entenda isso como “espero que seu sofá seja confortável o bastante para dormir”, seguido de “espero que você tenha cereais matinais no armário da cozinha”, ou então, nada feito – Edward rebateu, nitidamente tão feliz quanto eu pela oportunidade de passarmos algum tempo juntos.
– Vai sonhando que eu vou dividir meu Froot Loops com você, Styles!
– Claro que não, vou comer tudo sozinho enquanto você dorme.
Mostrei a língua, mais infantil impossível, e ambos rimos de nossa idiotice, extasiados demais com a trégua que parecia haver suspendido a tensão exaustiva entre nós, e aliviados por podermos apenas agir normalmente, ou pelo menos quase.
– Vou buscar seu travesseiro e cobertor – avisei, seguindo em direção às escadas. Quando estava na metade do caminho para o andar de cima, a voz de Edward me deteve.
– Obrigado.
Desci alguns degraus para poder olhá-lo, e o sorriso que ele me deu quase me fez rolar os degraus restantes e cair estatelada no chão.
– Pelo quê? – gaguejei, segurando firme no corrimão. A resposta demorou a vir, como se tivesse requerido muita reflexão, ainda que fosse um tanto óbvia demais.
– Por me deixar ficar aqui essa noite.
Franzi a testa de leve, intrigada. Ele parecia tão grato por um motivo tão simples... Aquele não era seu verdadeiro motivo para agradecer, ou pelo menos não o único.
– Não precisa agradecer – foi só o que pude dizer, com um sorriso igualmente sincero, reprimindo minha curiosidade diante de seu súbito comportamento enigmático e subindo as escadas.
Eu não precisava perguntar, pois já sabia a resposta. Como poderia não saber, se me sentia da mesma forma em relação a ele?
Obrigada por existir, pensei, retribuindo mentalmente seu sentimento.

Capítulo - 10

Segurei a maçaneta com mais força, sentindo um certo desequilíbrio devido à adrenalina subitamente lançada em meu sangue. Encarei os olhos inocentes de Andrew, sabendo que por trás do disfarce, algo terrível aguardava o momento certo para se revelar. Um sorrisinho satisfeito fez o canto de sua boca subir quase que imperceptivelmente, o que apenas contribuiu para que minhas entranhas se revirassem. Inclinando a cabeça um pouco para o lado, parecendo divertir-se com a repentina palidez que sua aparição causara, ele enfim falou.
– Olá, Gabriella.
Minha respiração se tornou irregular à medida que meu cérebro percebia que aquela situação estava realmente acontecendo. O choque se esvaiu rapidamente, levando consigo boa parte de minha firmeza, e após algumas tentativas frustradas, consegui responder.
– O que você está fazendo aqui?
Andrew ergueu levemente as sobrancelhas diante de meu esforço para balbuciar aquelas palavras, esforçando-se para não gargalhar. Quando voltou a falar, seu tom não me agradou nem um pouco, cheio de segundas intenções.
– Vim falar com você, oras. O que mais eu estaria fazendo?
Respirei fundo, tentando recuperar minha autoridade, e de certa forma, consegui. Retribuí o sorrisinho medíocre com um cínico, ainda que com apenas metade da intensidade que gostaria de demonstrar.
– Eu não tenho nada pra te falar.
Sem hesitar, empurrei a porta, com toda a intenção de fechá-la sem a menor cerimônia, mas sua mão me impediu, forçando-a na direção contrária e vencendo sem muito sacrifício.
– Mas eu tenho – ele retrucou, agora me olhando de forma levemente ameaçadora – E acredite, você vai gostar de me ouvir.
– Nada do que você diga me interessa – rosnei, o pânico voltando a se instalar dentro de mim – Vá embora.
– O que é isso? – ouvi Emilly perguntar, emergindo do corredor, e após um instante de silêncio, ela se aproximou – O que ele está fazendo aqui?
Andrew soltou um risinho de escárnio, sem desviar os olhos dos meus em momento algum. Um calafrio percorreu minha espinha ao imaginar o que ele tinha em mente.
– Boa pergunta – respondi apenas, forçando minha voz a soar confiante, embora eu estivesse assustada e mal pudesse esconder isso.
– Eu não sei como você nos encontrou, mas seja lá o caminho que o trouxe até aqui, por favor, pegue-o novamente e vá embora – Emilly disse, colocando-se entre nós e encarando-o firmemente por alguns segundos antes de recuar e fechar a porta sem mais delongas. Sua postura não o impediu de dizer uma última frase, ainda que contra a madeira que nos separava.
– Você vai se arrepender de não ter me escutado.

– Mas é claro que você não tem que escutar nada do que esse crápula tem pra te dizer!
Suspirei pesadamente ao ouvir o sermão enérgico de Emilly, afundando meu rosto nas palmas de minhas mãos. O choque de reencontrar Andrew após tudo o que havia acontecido entre nós havia me abalado consideravelmente; assim que nos vimos livres de sua presença, me arrastei até o sofá e não ousei me levantar, com os joelhos mais trêmulos que o recomendável para ficar de pé. Emilly, em compensação, andava de um lado para o outro, gesticulando enquanto esbravejava ofensas ao visitante indesejado e especulava como ele havia descoberto seu endereço.
– Ele me seguiu até aqui – falei, dando de ombros e silenciando-a imediatamente com meu tom conclusivo – É a única possibilidade.
Emilly ponderou minha teoria por um breve instante e assentiu, sentando-se ao meu lado.
– Mais um motivo para você não dar ouvidos a ele – ela murmurou, colocando uma mão em meu ombro – Fala sério, o cara te seguiu da sua casa até aqui. Sabe-se lá há quanto tempo ele vem te observando! Sabe-se lá o que ele pretende!
– Você está ajudando bastante, obrigada – resmunguei, massageando minhas têmporas. Dessa vez, foi Emilly quem suspirou.
– Me desculpe, eu só... Não confio nem um pouco nele.
– E você acha que eu confio?
– Não, mas eu te conheço, e sei que você está doida pra saber o que ele tanto insiste em te contar!
Arrisquei um olhar inocente, quase ultrajado, e ao perceber que não colou, encolhi os ombros, derrotada.
– Tá, eu admito que fiquei curiosa, mas...
– Gabriella Malik, você é inacreditável! – Emilly me interrompeu, levantando-se e voltando a perambular pela sala com a expressão lívida – Quantos tapas ele vai ter que te dar até você entender que nada a respeito de Andrew Garfield presta?
Devolvi seu olhar irritado com um verdadeiramente ofendido, e ela entendeu que havia ido longe demais de imediato.
– Me desculpe, de novo. Eu só não consigo te entender. Por que o perigo te atrai tanto? Por que você sempre faz questão de estar no olho do furacão?
Franzi a testa, incrédula. Meus ouvidos não podiam acreditar no que ouviam.
– Sabe o que eu não consigo entender? – retruquei, tentando me manter calma – Como você pode pensar uma coisa dessas a meu respeito, sendo que você é uma das pessoas que mais sabe o quanto eu só quero que me deixem em paz.
Deixei que minhas palavras fizessem efeito, observando sua expressão mudar gradativamente até chegar a um aspecto de remorso, e então continuei:
– Você acompanhou tudo de perto... E justamente por isso, sabe que tenho motivos de sobra para querer saber o que Andrew planeja. Eu preciso pelo menos tentar impedi-lo.
Alguns segundos de silêncio se passaram, até que ela respirou fundo e fechou os olhos.
– Desculpa. Você está absolutamente certa.
Emilly voltou a se sentar ao meu lado no sofá, e segurou uma de minhas mãos com firmeza.
– Só me prometa uma coisa.
– Não sou muito boa com promessas.
– Prometa que não vai procurá-lo, pelo menos não neste fim de semana – ela prosseguiu, como se nem tivesse me ouvido – Seria muita idiotice da sua parte marcar um encontro com esse cara enquanto estiver sozinha na cidade.
Refleti brevemente sobre sua sugestão, e por mais que minha consciência concordasse em gênero, número e grau com sua lógica, meu instinto me dizia que aquela promessa era algo que eu não seria capaz de cumprir.
– Gabriella... – Emilly advertiu, novamente percebendo que havia algo de errado em meu silêncio.
– Eu prometo que não vou procurá-lo, pelo menos não neste fim de semana – repeti, lançando-lhe um olhar sério – Satisfeita?
Emilly cerrou os olhos, inspecionando minha expressão, até revirá-los e se levantar de novo.
– Só quando eu voltar de viagem e descobrir que você cumpriu sua promessa – ela respondeu, e subitamente ficou imóvel – Quer saber? Eu não vou. Tenho certeza de que Ewan vai concordar em cancelar.
– Emilly, pelo amor de Deus, não seja ridícula – pedi, ficando de pé e me aproximando dela com determinação – Eu não vou fazer nada de errado, está bem? Confie em mim, pelo menos um pouquinho.
A campainha tocou logo depois que terminei de falar, e, assentindo resignadamente, ela se afastou para abrir a porta. Ewan a esperava do outro lado, pronto para carregar sua bagagem até o porta-malas de seu carro e dirigir até a casa dos pais. Nos despedimos rapidamente (Emilly despejou outras centenas de recomendações sobre minha cabeça, às quais eu respondi com um abraço silencioso), e observei o carro de Ewan se afastar antes de entrar. Ao me encontrar finalmente sozinha, soltei um longo suspiro, aliviada.
Apesar de minha solidão, algo me dizia que aquele fim de semana estava longe de ser tranquilo.
Dois minutos mais tarde, a campainha voltou a tocar. Meus olhos se arregalaram ao imaginar quem eu encontraria ao abrir a porta, e minha mente já previu horrores.
– Boa tarde – o entregador de pizza sorriu, completamente alheio à minha ansiedade, e somente ao pegar a caixa que ele me estendia, me lembrei de que estava faminta. Sorri de volta, paguei o pedido e tranquei a porta, rindo de minha própria estupidez. Andrew não chegaria ao ponto de ficar vigiando a casa de Emilly até que ela saísse para me abordar sozinha.
Mal havia me acomodado no sofá, e meu celular tocou. Bastou uma rápida olhada no visor do aparelho para que minhas conclusões a respeito da sanidade mental de Andrew descessem pelo ralo.
– Uau – falei ao atender a ligação, tentando manter meu tom de voz calmo embora o nervosismo tivesse voltado com força total, a ponto de fazer meu apetite desaparecer – Essa foi rápida.
– Obrigado – ele respondeu, nem um pouco modesto.
– Então é assim que você conquista suas amantes agora? – prossegui, irritada com sua prepotência, e, ao mesmo tempo, aterrorizada por ela – Você fica de tocaia perto das casas delas, espera até que elas saiam para visitar uma amiga e puf! Aparece magicamente para estragar a diversão. Devo confessar, você já teve dias melhores.
Andrew soltou um risinho divertido.
– E você perde cada vez mais a noção do perigo, pelo que estou percebendo. Não tem medo de que suas respostas atravessadas façam minha paciência se esgotar?
– Se isso acontecer, o que você vai fazer? – rebati, sem permitir que ele me derrotasse, ou pelo menos disfarçando meu medo ao máximo. Talvez, se eu mantivesse minhas defesas firmes, ele se intimidasse e deixasse alguma pista sobre o que estava tramando escapar.
– Espero que não tenhamos que chegar a esse ponto, sinceramente – ele disse, parecendo despreocupado com minhas ofensivas – Não acho justo que tenhamos que incomodar Edward logo agora que ele enfim encontrou o pai que existe dentro dele, e creio que você concorda comigo.
Minha garganta se fechou à menção de Edward. Como ele sabia de tudo aquilo? Será que ele já o havia perturbado antes de recorrer a mim? Tentei manter a calma.
– O que você quer? – rosnei, sem paciência para seus joguinhos.
– Não precisa ficar nervosa, Malik... Só estamos conversando – Andrew riu, fazendo meu estômago se revirar de raiva – E conversar é exatamente o que eu quero fazer.
– Já estamos conversando – falei, logo em seguida – Diga logo o que tiver que dizer e suma da minha vida de uma vez.
– Receio que as coisas não aconteçam tão rapidamente quanto nós dois desejamos – ele suspirou, adotando um tom sério – Essa será apenas a primeira de algumas conversas que precisaremos ter.
– Então comece a falar logo!
– Não por telefone. Prefiro que seja pessoalmente.
– E eu prefiro nunca mais ter que olhar na sua cara, mas infelizmente, nem tudo acontece como nós queremos – neguei, irritada com todo aquele mistério – Sem chance, eu não vou me encontrar com você.
– Pode escolher a hora e o lugar – Andrew insistiu – Eu não pretendo machucar você. Na verdade, o que eu quero não tem nada a ver com você.
– Ótimo! Então adeus!
Ele levou alguns segundos para responder, claramente desaprovando minha resistência.
– Por favor, apenas ouça o que eu tenho a dizer. Prometo nem sequer tocar em você.
Fechei os olhos, determinada a cumprir a promessa que havia feito a Emilly ainda há pouco, mas a urgência inesperada nas palavras de Andrew, incompatível com sua postura hostil, apenas alimentou minha curiosidade. Se ele precisava tanto de minha atenção, só podia se tratar de um assunto grave, que talvez não pudesse esperar um fim de semana.
Amaldiçoando-me mentalmente e desde então pedindo desculpas à Emilly, tomei minha decisão.
– Está bem.

Observei distraidamente o cardápio sobre a mesa, tentando conter minha ansiedade. Eu havia chegado ao café no qual marquei nosso encontro há alguns minutos, e a consciência de que, a qualquer momento, Andrew surgiria em meio aos demais clientes e se sentaria à minha frente fez meu estômago revirar. Ao mesmo tempo em que eu queria terminar logo com tudo aquilo e me ver livre dele para sempre, eu rezava para que ele não chegasse nunca e se esquecesse de mim de uma vez por todas.
Infelizmente, a segunda opção se tornou impossível, pois assim que ergui meus olhos do menu para inspecionar meus arredores, me deparei com uma figura familiar se aproximando. Respirei fundo ao observá-lo se sentar diante de mim, e por mais que quisesse fugir o mais depressa possível, não evitei seu olhar.
– Obrigado por concordar em me ver.
Hesitei por um instante antes de responder. Ficar perto dele era mais difícil do que havia imaginado; tudo o que antes era carinho parecia ter se transformado em medo, implorando-me para me afastar dele sem pensar duas vezes.
– Eu não concordei. Não tive outra opção.
– Sim, você teve – Andrew rebateu, sem pestanejar – Você poderia ter chamado a polícia. Você poderia ter implorado para que Emilly ficasse. Você poderia ter ignorado minha ligação. Mas ao invés disso, você está aqui. Então não se finja de desinteressada e ouça o que eu tenho a dizer.
Engoli em seco. Meu coração batia aceleradamente, bombeando adrenalina para todos os cantos de meu corpo e me fazendo questionar se marcar aquele encontro havia sido uma boa ideia.
Definitivamente, não. Mas já estava feito.
– Estou ouvindo, não estou? – falei, erguendo as sobrancelhas por um momento. Eu já estava encrencada mesmo, por que agir como uma criancinha amedrontada? Se ele estava pensando que conseguiria me derrotar, estava muito enganado.
– O que eu tenho pra dizer é um tanto... Chocante – ele avisou, após uma breve pausa – Vai ser um pouco difícil de acreditar a princípio, mas você é uma garota esperta, tenho certeza de que não vai demorar a entender.
– Apenas diga logo – pedi, começando a ficar impaciente com todo aquele mistério. Andrew assentiu, suspirando profundamente e debruçando-se sobre a mesa.
– Há alguns meses, fui alertado por meu médico a respeito de algumas alterações preocupantes em meus exames.
Meus olhos deixaram de evitar os dele, alarmados com o teor e tom de suas palavras. Minha hostilidade se dissipou quase que completamente, e minha mente imaginou as piores situações num milésimo de segundo. Notando meu assombro, Andrew explicou melhor a que se referia.
– Acalme-se, eu não vou morrer. Não por enquanto. Sinto muito.
Cerrei os olhos levemente, desaprovando sua piada de mau gosto. Ainda que eu não sentisse a menor simpatia por ele, não o desejava nada de mal, apenas o queria bem longe de mim. Ele soltou um risinho sem humor algum e continuou.
– A questão é: por razões que ainda não foram esclarecidas, eu... Não posso mais ter filhos.
Seus olhos se desviaram dos meus, observando a rua pela vitrine ao lado de nossa mesa, e a mudança em seu comportamento foi tão brutal quanto repentina. Andrew travou o maxilar, como se estivesse lutando para se manter calmo. Fui incapaz de sequer respirar por alguns segundos, absolutamente desnorteada diante de sua revelação. Ele parecia ter sido sempre um homem saudável... Aquilo não fazia sentido. Ou talvez eu apenas não quisesse que um destino tão triste tivesse despencado sobre sua cabeça. Levei algum tempo para processar a informação, e quando enfim pude dizer algo, minha voz saiu baixa.
– Eu sinto muito.
Andrew assentiu, respirando fundo antes de prosseguir, ainda sem me encarar.
– Jenny me deixou quando soube... Ser mãe sempre fora seu grande sonho, e agora que eu não posso mais... Fazer isso por ela, acabamos nos afastando, até que ela enfim terminou tudo entre nós.
Baixei meus olhos para meu colo, incapaz de continuar observando suas feições cada vez mais tristes. Meu cérebro ainda lutava para absorver as infelizes notícias que ele compartilhava, completamente confuso diante de sua mudança radical de postura, enquanto meu coração transformava boa parte do medo que eu sentia por ele em compaixão. Por mais que tivéssemos nos machucado muito, ele foi parte significativa de minha vida, e eu não podia deixar de me sentir horrível diante de seu sofrimento. A tristeza era nítida em seu rosto, agora que a fachada arrogante e ameaçadora havia cedido, e eu mal conseguia imaginar o pesadelo em que sua vida se transformara durante os últimos meses.
– Andrew... Você tem certeza disso? – murmurei, voltando a fitá-lo – Já procurou outro médico?
– Três, para ser mais exato – ele respondeu, sustentando meu olhar com resignação – Sim, eu tenho certeza.
– Não existe nenhum tratamento?
– Para quê? Ninguém sabe me dizer o que eu tenho. E enquanto não descobrirem, não há como combater isso... O que quer que isso seja.
Um breve silêncio caiu sobre nós. Observei a rua por um momento, tentando organizar meus pensamentos, e em meio ao choque, consegui recuperar parte de meu foco. – Eu não estou entendendo... Como eu posso te ajudar nisso tudo?
Andrew fixou os olhos em mim, e uma determinação aos poucos preencheu suas íris, como se nem tudo estivesse perdido. Metade de mim ficou aliviada por ainda haver uma luz no fim do túnel para ele, enquanto a outra metade entrou em modo de alerta, nem um pouco confortável com toda aquela instabilidade.
– Só você pode me ajudar, Gabriella – ele disse, sério – Mas para que você entenda isso, eu vou ter que contar algo que aconteceu alguns anos atrás... E eu preciso que você escute até o fim.
Meu olhar compadecido voltou a mostrar desconfiança, e ele rapidamente reforçou seu pedido:
– Eu já menti para você uma vez, e foi essa mentira que nos separou. Não pretendo repetir a experiência. Por favor, me dê uma chance.
Ponderei seu pedido, com milhões de pensamentos colidindo em minha mente, e enfim assenti, disposta a pelo menos ouvi-lo. Andrew respirou fundo outra vez, e começou a falar.
– Edward e eu nos conhecemos desde a faculdade, como você já sabe. Costumávamos ser melhores amigos naquela época... Difícil de acreditar, eu sei. Mas é verdade. Inclusive, quando conseguimos nossos primeiros empregos, ainda em lugares diferentes, bem antes de irmos para o colégio no qual você estudava, ele me chamou para passar alguns dias na casa de seus pais, enquanto seu apartamento em Londres ainda estava sendo providenciado, para comemorarmos.
Escutei com atenção, ainda sem entender como tudo aquilo me envolvia de alguma maneira, mas não o interrompi. Ouvi-lo falar sobre Edward fazia meu coração doer de formas que eu ainda desconhecia, o que eu achava ser impossível; parte disso se devia ao fato de que eu me sentia a principal culpada pelo fim da amizade dos dois.
– Eu já havia ido até lá algumas vezes, conhecia sua família, então aceitei sem cerimônias. Esperamos até todos irem dormir e assaltamos o estoque de cerveja que o pai de Edward havia comprado para o churrasco do dia seguinte. Resumindo: acabamos com tudo. Enchemos a cara. Foi um porre histórico.
Andrew riu baixo ao recordar os fatos que relatava, porém seu rosto voltou a ficar sério em seguida.
– Até que Emily apareceu.
Franzi a testa. O que Emily teria a ver com...
Minha garganta fechou ao juntar as peças do quebra-cabeça. Não podia ser... Ou podia?
Me esforcei para continuar acompanhando o relato de Andrew.
– Edward havia caído no sono há alguns minutos. Quer dizer, ele havia parado de responder ao que eu dizia, então presumi que tivesse adormecido. Estávamos um pouco distantes da casa, sentados na grama, para evitar que alguém nos encontrasse por acidente, mas ela nos achou. Ela se aproximou de nós em silêncio, e parou diante de mim. Apesar de estar bastante alterado, ainda era capaz de entender que sua presença ali não fazia o menor sentido, mas ela ignorou minhas perguntas... Não sei por que me surpreendi quando ela simplesmente se atirou em mim. Eu já devia saber.
Ele fez uma breve pausa, balançando negativamente a cabeça, como se aquilo soasse tão absurdo para ele quanto para mim.
– Desde a primeira vez em que estive na casa dos Styles, eu percebi que ela me olhava de um jeito diferente... Mas nunca pensei que chegaria a tanto. Ela era mais nova que eu, e prima do Edward, ou seja, território proibido. Além do mais, ela não havia despertado meu interesse, ainda que não houvesse impedimentos entre nós. Mas isso não a impediu de tentar. Assim como o irmão dela sempre foi obcecado por Edward, ela sempre foi obcecada por mim, a partir do momento em que pus os pés naquela casa.
A cada palavra, tudo parecia fazer mais sentido em minha cabeça. Ainda assim, era muito difícil de acreditar que aquilo estava realmente acontecendo. As engrenagens em minha mente giravam a todo vapor, e eu mal conseguia disfarçar minha curiosidade para saber mais. Andrew continuou, parecendo envolvido demais em suas memórias para sequer notar minha reação.
– Enfim... Emily me atacou, sem dizer uma palavra sequer. De início, eu tentei impedi-la, tentei empurrá-la para longe, mas ela continuava insistindo, e a quantidade exorbitante de álcool em minhas veias não estava ajudando nem um pouco. Após algum tempo, eu não pude mais lutar... Como dizem por aí, e infelizmente, com razão, comecei a pensar com a outra cabeça, e... Bem, a próxima lembrança que tenho é a de acordar pouco depois do amanhecer em seu quarto, sem roupas, com Emily dormindo tranquilamente em meus braços, igualmente nua.
Meus olhos se arregalaram ao ouvir a confirmação de minhas suspeitas. Então ele havia dormido com Emily... Isso só podia significar que...
– Nem preciso dizer que pirei quando percebi o que havia feito – Andrew prosseguiu, lançando-me um olhar cauteloso – Saí correndo de lá e me enfiei no quarto de hóspede onde deveria ter dormido, não sem antes fazê-la prometer que não contaria a ninguém. Mal consegui pregar os olhos pelo resto da manhã, imaginando como Edward reagiria quando descobrisse, se descobrisse. Para minha sorte, quando o encontrei no café da manhã, ele simplesmente comentou que nem se lembrava de como havia ido parar em sua cama na noite anterior. O resto da família parecia sequer desconfiar do que havia acontecido, o que me deixou muito mais tranquilo. Mas, como você já deve imaginar, meu sossego não durou muito.
– Ela te procurou alguns meses depois – completei, mal conseguindo conter a agitação dentro de mim.
Andrew assentiu, olhando fundo em meus olhos, e por mais que uma voz ainda me alertasse sobre a possibilidade de tudo aquilo ser pura invenção, por mais mirabolante que sua história parecesse ser, a cada segundo eu me sentia mais próxima da verdade.
– Ela estava grávida... E o filho só podia ser meu.
Ele me encarou por um instante, analisando minha reação, e quando consegui me recuperar do choque de ouvir sua confissão, gaguejei:
– E então, o que aconteceu?
– Marcamos um encontro, ela me implorou por ajuda... O que mais uma garota de 19 anos faria numa situação como essa?
Engoli em seco, sem conseguir evitar me colocar no lugar de Emily devido à idade que tinha na época. A simples ideia de engravidar de um homem que mal conhecia provocou calafrios.
– Eu entrei em pânico – Andrew continuou, desviando o olhar, como se estivesse envergonhado – Disse que não poderia fazer nada por ela, que não tinha a menor intenção de me casar, nem nada do tipo... Cheguei até a pedir para que ela desistisse da gravidez.
Pisquei algumas vezes, tentando evitar que lágrimas que eu não sabia explicar se acumulassem em meus olhos.
– Você pediu para que ela abortasse? – perguntei, imaginando o desespero de Emily ao ouvir tal coisa da pessoa que deveria tê-la ajudado num momento tão crítico. Ele nem sequer se importou com o que ela queria, com o que ela sentia... Apenas consigo mesmo, com seus próprios interesses.
Não pude deixar de pensar sobre o que teria feito se eu estivesse na situação em que Emily estava. A mera hipótese fez minha mente girar.
– Eu não me orgulho nem um pouco disso... Mesmo naquela época, eu já tinha consciência de quão errada era minha atitude – ele respondeu, cabisbaixo – Mas era a única saída que eu enxergava. Nenhum de nós dois estava preparado para tamanha responsabilidade, nós dois seríamos infelizes se aquela criança nascesse. Mas Emily se recusou a interromper a gravidez... Ela insistiu em criar o bebê sozinha, e ameaçou revelar a todos que eu era o pai, o que traria consequências indesejadas para mim. Sua família exigiria que eu ajudasse de alguma forma, ainda que apenas através de um nome no registro de nascimento... Eu tinha uma vida inteira pela frente, não podia deixá-la arruinar todos os meus planos.
Andrew respirou fundo, sem conseguir me encarar, e eu apenas esperei que ele continuasse, completamente paralisada.
– Então eu a ameacei. Disse que se ela me envolvesse de alguma forma naquilo tudo, eu... Eu a processaria pelo que aconteceu naquela noite, e daria um jeito de tirar a criança dela. Pediria custódia na justiça, qualquer coisa, tudo o que me fosse possível para puni-la. Eu a ameacei de várias formas, de todas as que pude pensar. De alguma forma, funcionou, porque ela simplesmente foi embora sem dizer uma palavra e nunca mais me procurou. Talvez ela tenha sentido tanta raiva e tanto nojo de mim que preferiu me ver longe daquela criança. Somente ouvi a seu respeito novamente alguns meses depois, quando todos descobriram sobre a gravidez... E ela teve a brilhante ideia de incriminar o próprio primo.
Fechei os olhos, concentrando-me em respirar normalmente. Era demais para mim... Eu me recusava a acreditar que havia tanto descaso, tanto egoísmo por trás da existência de um simples garotinho, que não tinha a menor culpa de nada daquilo, e que todo aquele peso havia sido jogado sobre os ombros de um homem igualmente inocente...
– Edward... – sussurrei, sem conseguir evitar que seu nome escapasse por entre meus lábios. Ele não fazia ideia... Ele era apenas uma vítima, assim como Ben.
– Eu juro que não fazia ideia de que ela o culparia – Andrew disse, mantendo seu tom grave – Mas infelizmente, ele era a saída perfeita. Quando ele me procurou, mais nervoso do que eu já o havia visto, perguntando o que havia acontecido naquela noite, eu fiquei tão chocado quanto ele ao descobrir que Emily havia transferido minha culpa para ele. No entanto, eu não tinha outra opção a não ser acatar ao seu plano. Era a minha vida, ou a dele.
Meus olhos horrorizados encontraram os dele, pesarosos, e dessa vez eu não consegui lutar contra as lágrimas que embaçavam minha visão. Minha respiração se tornou irregular, minhas mãos tremiam, meu coração batia num ritmo frenético. Eu precisava sair dali. Andrew não se intimidou pela indignação em meu rosto. – Então, quando me chamaram para esclarecer o que realmente havia acontecido, eu não hesitei em dizer que sim, Edward havia dormido com Emily... E ninguém hesitou em acreditar em meu testemunho, ou no dela. Ninguém sequer desconfiou de que pudéssemos estar mentindo.
Balancei a cabeça, me recusando a acreditar que aquela história era verdade. Uma sensação de revolta, de repulsa, de ódio começava a crescer dentro de mim. Senti vontade de gritar, de pular em cima dele, de estapeá-lo, socá-lo, chutá-lo, matá-lo. Como ele havia sido capaz?
– Mas agora eu estou disposto a corrigir meu erro... Quero assumir a paternidade de Ben. E você é a única pessoa que pode me ajudar. Edward jamais me escutaria, mas ele escuta você. Apesar de não estarem mais juntos, eu sei que ele ainda acreditaria em você. Ele te ama... De verdade.
– Chega – falei, sem conseguir assimilar mais uma palavra – Eu preciso ir embora daqui.
Trêmula, me levantei e caminhei em passos rápidos até a saída, quase esbarrando num homem que passava na calçada. Eu estava tão chocada, tão ofendida por toda aquela sujeira que mal conseguia enxergar o que acontecia ao meu redor, o que apenas intensificou meu susto ao sentir os dedos de Andrew envolverem meu pulso e me puxarem em sua direção.
– Por favor, diga que vai me ajudar – ele murmurou, numa última tentativa de me convencer.
– Me larga – exclamei, desvencilhando-me dele o mais rápido que pude e dando-lhe as costas. Porém, ele foi mais rápido e repetiu seu gesto.
– Se você não me ajudar por bem... – ele rosnou, voltando a usar seu tom hostil – Vai me ajudar por mal. E acredite, você não quer que eu te force a cooperar comigo.
Encarei seus olhos ameaçadores por um instante, até que ele me soltou e, com um risinho, se afastou, não sem antes dar um último aviso:
– A gente se vê.