Segurei a maçaneta com
mais força, sentindo um certo desequilíbrio devido à adrenalina
subitamente lançada em meu sangue. Encarei os olhos inocentes de Andrew,
sabendo que por trás do disfarce, algo terrível aguardava o momento
certo para se revelar. Um sorrisinho satisfeito fez o canto de sua boca
subir quase que imperceptivelmente, o que apenas contribuiu para que
minhas entranhas se revirassem. Inclinando a cabeça um pouco para o
lado, parecendo divertir-se com a repentina palidez que sua aparição
causara, ele enfim falou.
– Olá, Gabriella.
Minha respiração se tornou irregular à medida que meu cérebro percebia
que aquela situação estava realmente acontecendo. O choque se esvaiu
rapidamente, levando consigo boa parte de minha firmeza, e após algumas
tentativas frustradas, consegui responder.
– O que você está fazendo aqui?
Andrew ergueu levemente as sobrancelhas diante de meu esforço para
balbuciar aquelas palavras, esforçando-se para não gargalhar. Quando
voltou a falar, seu tom não me agradou nem um pouco, cheio de segundas
intenções.
– Vim falar com você, oras. O que mais eu estaria fazendo?
Respirei fundo, tentando recuperar minha autoridade, e de certa forma,
consegui. Retribuí o sorrisinho medíocre com um cínico, ainda que com
apenas metade da intensidade que gostaria de demonstrar.
– Eu não tenho nada pra te falar.
Sem hesitar, empurrei a porta, com toda a intenção de fechá-la sem a
menor cerimônia, mas sua mão me impediu, forçando-a na direção
contrária e vencendo sem muito sacrifício.
– Mas eu tenho – ele retrucou, agora me olhando de forma levemente ameaçadora – E acredite, você vai gostar de me ouvir.
– Nada do que você diga me interessa – rosnei, o pânico voltando a se instalar dentro de mim – Vá embora.
– O que é isso? – ouvi Emilly perguntar, emergindo do corredor, e após um instante de silêncio, ela se aproximou – O que ele está fazendo aqui?
Andrew soltou um risinho de escárnio, sem desviar os olhos dos meus
em momento algum. Um calafrio percorreu minha espinha ao imaginar o que
ele tinha em mente.
– Boa pergunta – respondi apenas, forçando minha voz a soar
confiante, embora eu estivesse assustada e mal pudesse esconder isso.
– Eu não sei como você nos encontrou, mas seja lá o caminho que o trouxe até aqui, por favor, pegue-o novamente e vá embora –
Emilly disse, colocando-se entre nós e encarando-o firmemente por alguns
segundos antes de recuar e fechar a porta sem mais delongas. Sua
postura não o impediu de dizer uma última frase, ainda que contra a
madeira que nos separava.
– Você vai se arrepender de não ter me escutado.
– Mas é claro que você não tem que escutar nada do que esse crápula tem pra te dizer!
Suspirei pesadamente ao ouvir o sermão enérgico de Emilly, afundando meu rosto nas palmas de minhas mãos. O choque de reencontrar
Andrew após tudo o que havia acontecido entre nós havia me abalado
consideravelmente; assim que nos vimos livres de sua presença, me
arrastei até o sofá e não ousei me levantar, com os joelhos mais
trêmulos que o recomendável para ficar de pé. Emilly, em compensação,
andava de um lado para o outro, gesticulando enquanto esbravejava
ofensas ao visitante indesejado e especulava como ele havia descoberto
seu endereço.
– Ele me seguiu até aqui – falei, dando de ombros e silenciando-a
imediatamente com meu tom conclusivo – É a única possibilidade.
Emilly ponderou minha teoria por um breve instante e assentiu, sentando-se ao meu lado.
– Mais um motivo para você não dar ouvidos a ele – ela murmurou,
colocando uma mão em meu ombro – Fala sério, o cara te seguiu da sua
casa até aqui. Sabe-se lá há quanto tempo ele vem te observando! Sabe-se
lá o que ele pretende!
– Você está ajudando bastante, obrigada – resmunguei, massageando minhas têmporas. Dessa vez, foi Emilly quem suspirou.
– Me desculpe, eu só... Não confio nem um pouco nele.
– E você acha que eu confio?
– Não, mas eu te conheço, e sei que você está doida pra saber o que ele tanto insiste em te contar!
Arrisquei um olhar inocente, quase ultrajado, e ao perceber que não colou, encolhi os ombros, derrotada.
– Tá, eu admito que fiquei curiosa, mas...
– Gabriella Malik, você é inacreditável! – Emilly me interrompeu,
levantando-se e voltando a perambular pela sala com a expressão lívida –
Quantos tapas ele vai ter que te dar até você entender que nada a
respeito de Andrew Garfield presta?
Devolvi seu olhar irritado com um verdadeiramente ofendido, e ela entendeu que havia ido longe demais de imediato.
– Me desculpe, de novo. Eu só não consigo te entender. Por que o
perigo te atrai tanto? Por que você sempre faz questão de estar no olho
do furacão?
Franzi a testa, incrédula. Meus ouvidos não podiam acreditar no que ouviam.
– Sabe o que eu não consigo entender? – retruquei, tentando me
manter calma – Como você pode pensar uma coisa dessas a meu respeito,
sendo que você é uma das pessoas que mais sabe o quanto eu só quero que
me deixem em paz.
Deixei que minhas palavras fizessem efeito, observando sua expressão
mudar gradativamente até chegar a um aspecto de remorso, e então
continuei:
– Você acompanhou tudo de perto... E justamente por isso, sabe que tenho motivos de sobra para querer saber o que Andrew planeja. Eu preciso pelo menos tentar impedi-lo.
Alguns segundos de silêncio se passaram, até que ela respirou fundo e fechou os olhos.
– Desculpa. Você está absolutamente certa.
Emilly voltou a se sentar ao meu lado no sofá, e segurou uma de minhas mãos com firmeza.
– Só me prometa uma coisa.
– Não sou muito boa com promessas.
– Prometa que não vai procurá-lo, pelo menos não neste fim de semana
– ela prosseguiu, como se nem tivesse me ouvido – Seria muita idiotice
da sua parte marcar um encontro com esse cara enquanto estiver sozinha
na cidade.
Refleti brevemente sobre sua sugestão, e por mais que minha
consciência concordasse em gênero, número e grau com sua lógica, meu
instinto me dizia que aquela promessa era algo que eu não seria capaz de
cumprir.
– Gabriella... – Emilly advertiu, novamente percebendo que havia algo de errado em meu silêncio.
– Eu prometo que não vou procurá-lo, pelo menos não neste fim de semana – repeti, lançando-lhe um olhar sério – Satisfeita?
Emilly cerrou os olhos, inspecionando minha expressão, até revirá-los e se levantar de novo.
– Só quando eu voltar de viagem e descobrir que você cumpriu sua
promessa – ela respondeu, e subitamente ficou imóvel – Quer saber? Eu
não vou. Tenho certeza de que Ewan vai concordar em cancelar.
– Emilly, pelo amor de Deus, não seja ridícula – pedi, ficando de pé
e me aproximando dela com determinação – Eu não vou fazer nada de
errado, está bem? Confie em mim, pelo menos um pouquinho.
A campainha tocou logo depois que terminei de falar, e, assentindo
resignadamente, ela se afastou para abrir a porta. Ewan a esperava do
outro lado, pronto para carregar sua bagagem até o porta-malas de seu
carro e dirigir até a casa dos pais. Nos despedimos rapidamente (Emilly
despejou outras centenas de recomendações sobre minha cabeça, às quais
eu respondi com um abraço silencioso), e observei o carro de Ewan se
afastar antes de entrar. Ao me encontrar finalmente sozinha, soltei um
longo suspiro, aliviada.
Apesar de minha solidão, algo me dizia que aquele fim de semana estava longe de ser tranquilo.
Dois minutos mais tarde, a campainha voltou a tocar. Meus olhos se
arregalaram ao imaginar quem eu encontraria ao abrir a porta, e minha
mente já previu horrores.
– Boa tarde – o entregador de pizza sorriu, completamente alheio à
minha ansiedade, e somente ao pegar a caixa que ele me estendia, me
lembrei de que estava faminta. Sorri de volta, paguei o pedido e
tranquei a porta, rindo de minha própria estupidez. Andrew não chegaria ao ponto de ficar vigiando a casa de Emilly até que ela saísse para me abordar sozinha.
Mal havia me acomodado no sofá, e meu celular tocou. Bastou uma
rápida olhada no visor do aparelho para que minhas conclusões a respeito
da sanidade mental de Andrew descessem pelo ralo.
– Uau – falei ao atender a ligação, tentando manter meu tom de voz
calmo embora o nervosismo tivesse voltado com força total, a ponto de
fazer meu apetite desaparecer – Essa foi rápida.
– Obrigado – ele respondeu, nem um pouco modesto.
– Então é assim que você conquista suas amantes agora? – prossegui,
irritada com sua prepotência, e, ao mesmo tempo, aterrorizada por ela –
Você fica de tocaia perto das casas delas, espera até que elas saiam
para visitar uma amiga e puf! Aparece magicamente para estragar a
diversão. Devo confessar, você já teve dias melhores.
Andrew soltou um risinho divertido.
– E você perde cada vez mais a noção do perigo, pelo que estou
percebendo. Não tem medo de que suas respostas atravessadas façam minha
paciência se esgotar?
– Se isso acontecer, o que você vai fazer? – rebati, sem permitir
que ele me derrotasse, ou pelo menos disfarçando meu medo ao máximo.
Talvez, se eu mantivesse minhas defesas firmes, ele se intimidasse e
deixasse alguma pista sobre o que estava tramando escapar.
– Espero que não tenhamos que chegar a esse ponto, sinceramente –
ele disse, parecendo despreocupado com minhas ofensivas – Não acho justo
que tenhamos que incomodar Edward logo agora que ele enfim encontrou o pai que existe dentro dele, e creio que você concorda comigo.
Minha garganta se fechou à menção de Edward. Como ele sabia de tudo aquilo? Será que ele já o havia perturbado antes de recorrer a mim? Tentei manter a calma.
– O que você quer? – rosnei, sem paciência para seus joguinhos.
– Não precisa ficar nervosa, Malik... Só estamos conversando – Andrew riu, fazendo meu estômago se revirar de raiva – E conversar é exatamente o que eu quero fazer.
– Já estamos conversando – falei, logo em seguida – Diga logo o que tiver que dizer e suma da minha vida de uma vez.
– Receio que as coisas não aconteçam tão rapidamente quanto nós dois
desejamos – ele suspirou, adotando um tom sério – Essa será apenas a
primeira de algumas conversas que precisaremos ter.
– Então comece a falar logo!
– Não por telefone. Prefiro que seja pessoalmente.
– E eu prefiro nunca mais ter que olhar na sua cara, mas
infelizmente, nem tudo acontece como nós queremos – neguei, irritada com
todo aquele mistério – Sem chance, eu não vou me encontrar com você.
– Pode escolher a hora e o lugar – Andrew insistiu – Eu não pretendo machucar você. Na verdade, o que eu quero não tem nada a ver com você.
– Ótimo! Então adeus!
Ele levou alguns segundos para responder, claramente desaprovando minha resistência.
– Por favor, apenas ouça o que eu tenho a dizer. Prometo nem sequer tocar em você.
Fechei os olhos, determinada a cumprir a promessa que havia feito a Emilly ainda há pouco, mas a urgência inesperada nas palavras de
Andrew, incompatível com sua postura hostil, apenas alimentou minha
curiosidade. Se ele precisava tanto de minha atenção, só podia se tratar
de um assunto grave, que talvez não pudesse esperar um fim de semana.
Amaldiçoando-me mentalmente e desde então pedindo desculpas à Emilly, tomei minha decisão.
– Está bem.
Observei distraidamente o cardápio sobre a mesa, tentando conter
minha ansiedade. Eu havia chegado ao café no qual marquei nosso
encontro há alguns minutos, e a consciência de que, a qualquer momento,
Andrew surgiria em meio aos demais clientes e se sentaria à minha frente
fez meu estômago revirar. Ao mesmo tempo em que eu queria terminar logo
com tudo aquilo e me ver livre dele para sempre, eu rezava para que ele
não chegasse nunca e se esquecesse de mim de uma vez por todas.
Infelizmente, a segunda opção se tornou impossível, pois assim que
ergui meus olhos do menu para inspecionar meus arredores, me deparei com
uma figura familiar se aproximando. Respirei fundo ao observá-lo se
sentar diante de mim, e por mais que quisesse fugir o mais depressa
possível, não evitei seu olhar.
– Obrigado por concordar em me ver.
Hesitei por um instante antes de responder. Ficar perto dele era
mais difícil do que havia imaginado; tudo o que antes era carinho
parecia ter se transformado em medo, implorando-me para me afastar dele
sem pensar duas vezes.
– Eu não concordei. Não tive outra opção.
– Sim, você teve – Andrew rebateu, sem pestanejar – Você poderia ter chamado a polícia. Você poderia ter implorado para que
Emilly ficasse. Você poderia ter ignorado minha ligação. Mas ao invés
disso, você está aqui. Então não se finja de desinteressada e ouça o que
eu tenho a dizer.
Engoli em seco. Meu coração batia aceleradamente, bombeando
adrenalina para todos os cantos de meu corpo e me fazendo questionar se
marcar aquele encontro havia sido uma boa ideia.
Definitivamente, não. Mas já estava feito.
– Estou ouvindo, não estou? – falei, erguendo as sobrancelhas por um
momento. Eu já estava encrencada mesmo, por que agir como uma
criancinha amedrontada? Se ele estava pensando que conseguiria me
derrotar, estava muito enganado.
– O que eu tenho pra dizer é um tanto... Chocante – ele avisou, após
uma breve pausa – Vai ser um pouco difícil de acreditar a princípio,
mas você é uma garota esperta, tenho certeza de que não vai demorar a
entender.
– Apenas diga logo – pedi, começando a ficar impaciente com todo aquele mistério. Andrew assentiu, suspirando profundamente e debruçando-se sobre a mesa.
– Há alguns meses, fui alertado por meu médico a respeito de algumas alterações preocupantes em meus exames.
Meus olhos deixaram de evitar os dele, alarmados com o teor e tom de
suas palavras. Minha hostilidade se dissipou quase que completamente, e
minha mente imaginou as piores situações num milésimo de segundo.
Notando meu assombro, Andrew explicou melhor a que se referia.
– Acalme-se, eu não vou morrer. Não por enquanto. Sinto muito.
Cerrei os olhos levemente, desaprovando sua piada de mau gosto.
Ainda que eu não sentisse a menor simpatia por ele, não o desejava nada
de mal, apenas o queria bem longe de mim. Ele soltou um risinho sem
humor algum e continuou.
– A questão é: por razões que ainda não foram esclarecidas, eu... Não posso mais ter filhos.
Seus olhos se desviaram dos meus, observando a rua pela vitrine ao
lado de nossa mesa, e a mudança em seu comportamento foi tão brutal
quanto repentina. Andrew travou o maxilar, como se estivesse lutando
para se manter calmo. Fui incapaz de sequer respirar por alguns
segundos, absolutamente desnorteada diante de sua revelação. Ele parecia
ter sido sempre um homem saudável... Aquilo não fazia sentido. Ou
talvez eu apenas não quisesse que um destino tão triste tivesse
despencado sobre sua cabeça. Levei algum tempo para processar a
informação, e quando enfim pude dizer algo, minha voz saiu baixa.
– Eu sinto muito.
Andrew assentiu, respirando fundo antes de prosseguir, ainda sem me encarar.
– Jenny me deixou quando soube... Ser mãe sempre fora seu grande
sonho, e agora que eu não posso mais... Fazer isso por ela, acabamos nos
afastando, até que ela enfim terminou tudo entre nós.
Baixei meus olhos para meu colo, incapaz de continuar observando
suas feições cada vez mais tristes. Meu cérebro ainda lutava para
absorver as infelizes notícias que ele compartilhava, completamente
confuso diante de sua mudança radical de postura, enquanto meu coração
transformava boa parte do medo que eu sentia por ele em compaixão. Por
mais que tivéssemos nos machucado muito, ele foi parte significativa de
minha vida, e eu não podia deixar de me sentir horrível diante de seu
sofrimento. A tristeza era nítida em seu rosto, agora que a fachada
arrogante e ameaçadora havia cedido, e eu mal conseguia imaginar o
pesadelo em que sua vida se transformara durante os últimos meses.
– Andrew... Você tem certeza disso? – murmurei, voltando a fitá-lo – Já procurou outro médico?
– Três, para ser mais exato – ele respondeu, sustentando meu olhar com resignação – Sim, eu tenho certeza.
– Não existe nenhum tratamento?
– Para quê? Ninguém sabe me dizer o que eu tenho. E enquanto não
descobrirem, não há como combater isso... O que quer que isso seja.
Um breve silêncio caiu sobre nós. Observei a rua por um momento,
tentando organizar meus pensamentos, e em meio ao choque, consegui
recuperar parte de meu foco.
– Eu não estou entendendo... Como eu posso te ajudar nisso tudo?
Andrew fixou os olhos em mim, e uma determinação aos poucos
preencheu suas íris, como se nem tudo estivesse perdido. Metade de mim
ficou aliviada por ainda haver uma luz no fim do túnel para ele,
enquanto a outra metade entrou em modo de alerta, nem um pouco
confortável com toda aquela instabilidade.
– Só você pode me ajudar, Gabriella – ele disse, sério – Mas para
que você entenda isso, eu vou ter que contar algo que aconteceu alguns
anos atrás... E eu preciso que você escute até o fim.
Meu olhar compadecido voltou a mostrar desconfiança, e ele rapidamente reforçou seu pedido:
– Eu já menti para você uma vez, e foi essa mentira que nos separou.
Não pretendo repetir a experiência. Por favor, me dê uma chance.
Ponderei seu pedido, com milhões de pensamentos colidindo em minha mente, e enfim assenti, disposta a pelo menos ouvi-lo. Andrew respirou fundo outra vez, e começou a falar.
– Edward e eu nos conhecemos desde a faculdade, como você já sabe.
Costumávamos ser melhores amigos naquela época... Difícil de acreditar,
eu sei. Mas é verdade. Inclusive, quando conseguimos nossos primeiros
empregos, ainda em lugares diferentes, bem antes de irmos para o colégio
no qual você estudava, ele me chamou para passar alguns dias na casa de
seus pais, enquanto seu apartamento em Londres ainda estava sendo
providenciado, para comemorarmos.
Escutei com atenção, ainda sem entender como tudo aquilo me envolvia
de alguma maneira, mas não o interrompi. Ouvi-lo falar sobre Edward
fazia meu coração doer de formas que eu ainda desconhecia, o que eu
achava ser impossível; parte disso se devia ao fato de que eu me sentia a
principal culpada pelo fim da amizade dos dois.
– Eu já havia ido até lá algumas vezes, conhecia sua família, então
aceitei sem cerimônias. Esperamos até todos irem dormir e assaltamos o
estoque de cerveja que o pai de Edward havia comprado para o churrasco do dia seguinte. Resumindo: acabamos com tudo. Enchemos a cara. Foi um porre histórico.
Andrew riu baixo ao recordar os fatos que relatava, porém seu rosto voltou a ficar sério em seguida.
– Até que Emily apareceu.
Franzi a testa. O que Emily teria a ver com...
Minha garganta fechou ao juntar as peças do quebra-cabeça. Não podia ser... Ou podia?
Me esforcei para continuar acompanhando o relato de Andrew.
– Edward havia caído no sono há alguns minutos. Quer dizer, ele
havia parado de responder ao que eu dizia, então presumi que tivesse
adormecido. Estávamos um pouco distantes da casa, sentados na grama,
para evitar que alguém nos encontrasse por acidente, mas ela nos achou.
Ela se aproximou de nós em silêncio, e parou diante de mim. Apesar de
estar bastante alterado, ainda era capaz de entender que sua presença
ali não fazia o menor sentido, mas ela ignorou minhas perguntas... Não
sei por que me surpreendi quando ela simplesmente se atirou em mim. Eu
já devia saber.
Ele fez uma breve pausa, balançando negativamente a cabeça, como se aquilo soasse tão absurdo para ele quanto para mim.
– Desde a primeira vez em que estive na casa dos Styles, eu percebi
que ela me olhava de um jeito diferente... Mas nunca pensei que chegaria
a tanto. Ela era mais nova que eu, e prima do Edward, ou seja,
território proibido. Além do mais, ela não havia despertado meu
interesse, ainda que não houvesse impedimentos entre nós. Mas isso não a
impediu de tentar. Assim como o irmão dela sempre foi obcecado por Edward, ela sempre foi obcecada por mim, a partir do momento em que pus os pés naquela casa.
A cada palavra, tudo parecia fazer mais sentido em minha cabeça.
Ainda assim, era muito difícil de acreditar que aquilo estava realmente
acontecendo. As engrenagens em minha mente giravam a todo vapor, e eu
mal conseguia disfarçar minha curiosidade para saber mais. Andrew continuou, parecendo envolvido demais em suas memórias para sequer notar minha reação.
– Enfim... Emily me atacou, sem dizer uma palavra sequer. De início,
eu tentei impedi-la, tentei empurrá-la para longe, mas ela continuava
insistindo, e a quantidade exorbitante de álcool em minhas veias não
estava ajudando nem um pouco. Após algum tempo, eu não pude mais
lutar... Como dizem por aí, e infelizmente, com razão, comecei a pensar
com a outra cabeça, e... Bem, a próxima lembrança que tenho é a de
acordar pouco depois do amanhecer em seu quarto, sem roupas, com Emily
dormindo tranquilamente em meus braços, igualmente nua.
Meus olhos se arregalaram ao ouvir a confirmação de minhas
suspeitas. Então ele havia dormido com Emily... Isso só podia significar
que...
– Nem preciso dizer que pirei quando percebi o que havia feito –
Andrew prosseguiu, lançando-me um olhar cauteloso – Saí correndo de lá e
me enfiei no quarto de hóspede onde deveria ter dormido, não sem antes
fazê-la prometer que não contaria a ninguém. Mal consegui pregar os
olhos pelo resto da manhã, imaginando como Edward reagiria quando
descobrisse, se descobrisse. Para minha sorte, quando o encontrei no
café da manhã, ele simplesmente comentou que nem se lembrava de como
havia ido parar em sua cama na noite anterior. O resto da família
parecia sequer desconfiar do que havia acontecido, o que me deixou muito
mais tranquilo. Mas, como você já deve imaginar, meu sossego não durou
muito.
– Ela te procurou alguns meses depois – completei, mal conseguindo conter a agitação dentro de mim.
Andrew assentiu, olhando fundo em meus olhos, e por mais que uma voz
ainda me alertasse sobre a possibilidade de tudo aquilo ser pura
invenção, por mais mirabolante que sua história parecesse ser, a cada
segundo eu me sentia mais próxima da verdade.
– Ela estava grávida... E o filho só podia ser meu.
Ele me encarou por um instante, analisando minha reação, e quando
consegui me recuperar do choque de ouvir sua confissão, gaguejei:
– E então, o que aconteceu?
– Marcamos um encontro, ela me implorou por ajuda... O que mais uma garota de 19 anos faria numa situação como essa?
Engoli em seco, sem conseguir evitar me colocar no lugar de Emily
devido à idade que tinha na época. A simples ideia de engravidar de um
homem que mal conhecia provocou calafrios.
– Eu entrei em pânico – Andrew continuou, desviando o olhar, como se
estivesse envergonhado – Disse que não poderia fazer nada por ela, que
não tinha a menor intenção de me casar, nem nada do tipo... Cheguei até a
pedir para que ela desistisse da gravidez.
Pisquei algumas vezes, tentando evitar que lágrimas que eu não sabia explicar se acumulassem em meus olhos.
– Você pediu para que ela abortasse? – perguntei, imaginando o
desespero de Emily ao ouvir tal coisa da pessoa que deveria tê-la
ajudado num momento tão crítico. Ele nem sequer se importou com o que
ela queria, com o que ela sentia... Apenas consigo mesmo, com seus
próprios interesses.
Não pude deixar de pensar sobre o que teria feito se eu estivesse na
situação em que Emily estava. A mera hipótese fez minha mente girar.
– Eu não me orgulho nem um pouco disso... Mesmo naquela época, eu já
tinha consciência de quão errada era minha atitude – ele respondeu,
cabisbaixo – Mas era a única saída que eu enxergava. Nenhum de nós dois
estava preparado para tamanha responsabilidade, nós dois seríamos
infelizes se aquela criança nascesse. Mas Emily se recusou a interromper
a gravidez... Ela insistiu em criar o bebê sozinha, e ameaçou revelar a
todos que eu era o pai, o que traria consequências indesejadas para
mim. Sua família exigiria que eu ajudasse de alguma forma, ainda que
apenas através de um nome no registro de nascimento... Eu tinha uma vida
inteira pela frente, não podia deixá-la arruinar todos os meus planos.
Andrew respirou fundo, sem conseguir me encarar, e eu apenas esperei que ele continuasse, completamente paralisada.
– Então eu a ameacei. Disse que se ela me envolvesse de alguma forma
naquilo tudo, eu... Eu a processaria pelo que aconteceu naquela noite, e
daria um jeito de tirar a criança dela. Pediria custódia na justiça,
qualquer coisa, tudo o que me fosse possível para puni-la. Eu a ameacei
de várias formas, de todas as que pude pensar. De alguma forma,
funcionou, porque ela simplesmente foi embora sem dizer uma palavra e
nunca mais me procurou. Talvez ela tenha sentido tanta raiva e tanto
nojo de mim que preferiu me ver longe daquela criança. Somente ouvi a
seu respeito novamente alguns meses depois, quando todos descobriram
sobre a gravidez... E ela teve a brilhante ideia de incriminar o próprio
primo.
Fechei os olhos, concentrando-me em respirar normalmente. Era demais
para mim... Eu me recusava a acreditar que havia tanto descaso, tanto
egoísmo por trás da existência de um simples garotinho, que não tinha a
menor culpa de nada daquilo, e que todo aquele peso havia sido jogado
sobre os ombros de um homem igualmente inocente...
– Edward... – sussurrei, sem conseguir evitar que seu nome escapasse
por entre meus lábios. Ele não fazia ideia... Ele era apenas uma
vítima, assim como Ben.
– Eu juro que não fazia ideia de que ela o culparia – Andrew disse,
mantendo seu tom grave – Mas infelizmente, ele era a saída perfeita.
Quando ele me procurou, mais nervoso do que eu já o havia visto,
perguntando o que havia acontecido naquela noite, eu fiquei tão chocado
quanto ele ao descobrir que Emily havia transferido minha culpa para
ele. No entanto, eu não tinha outra opção a não ser acatar ao seu plano.
Era a minha vida, ou a dele.
Meus olhos horrorizados encontraram os dele, pesarosos, e dessa vez
eu não consegui lutar contra as lágrimas que embaçavam minha visão.
Minha respiração se tornou irregular, minhas mãos tremiam, meu coração
batia num ritmo frenético. Eu precisava sair dali. Andrew não se intimidou pela indignação em meu rosto.
– Então, quando me chamaram para esclarecer o que realmente havia acontecido, eu não hesitei em dizer que sim,
Edward havia dormido com Emily... E ninguém hesitou em acreditar em meu
testemunho, ou no dela. Ninguém sequer desconfiou de que pudéssemos
estar mentindo.
Balancei a cabeça, me recusando a acreditar que aquela história era
verdade. Uma sensação de revolta, de repulsa, de ódio começava a crescer
dentro de mim. Senti vontade de gritar, de pular em cima dele, de
estapeá-lo, socá-lo, chutá-lo, matá-lo. Como ele havia sido capaz?
– Mas agora eu estou disposto a corrigir meu erro... Quero assumir a
paternidade de Ben. E você é a única pessoa que pode me ajudar. Edward
jamais me escutaria, mas ele escuta você. Apesar de não estarem mais
juntos, eu sei que ele ainda acreditaria em você. Ele te ama... De
verdade.
– Chega – falei, sem conseguir assimilar mais uma palavra – Eu preciso ir embora daqui.
Trêmula, me levantei e caminhei em passos rápidos até a saída, quase
esbarrando num homem que passava na calçada. Eu estava tão chocada, tão
ofendida por toda aquela sujeira que mal conseguia enxergar o que
acontecia ao meu redor, o que apenas intensificou meu susto ao sentir os
dedos de Andrew envolverem meu pulso e me puxarem em sua direção.
– Por favor, diga que vai me ajudar – ele murmurou, numa última tentativa de me convencer.
– Me larga – exclamei, desvencilhando-me dele o mais rápido que pude
e dando-lhe as costas. Porém, ele foi mais rápido e repetiu seu gesto.
– Se você não me ajudar por bem... – ele rosnou, voltando a usar seu
tom hostil – Vai me ajudar por mal. E acredite, você não quer que eu te
force a cooperar comigo.
Encarei seus olhos ameaçadores por um instante, até que ele me
soltou e, com um risinho, se afastou, não sem antes dar um último aviso:
– A gente se vê.
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