– Gabriella?
Sua voz soou como um mero sussurro, refletindo o espanto nítido em
seus olhos ao encontrarem os meus. Ao me ver ali, diante dele, como
havia imaginado tantas vezes nos últimos dias, todos os discursos que
havia ensaiado desapareceram de minha memória, deixando-me completamente
sem reação. De alguma forma, no entanto, meu cérebro entrou no piloto
automático, e, guiada por minha determinação, consegui reagir.
– Oi, Edward.
Ele apenas continuou me encarando, como se eu fosse um fantasma, um
produto de sua mente, que a qualquer momento desapareceria se ele se
recusasse a admitir minha presença. Infelizmente para ele, eu era
bastante real. E após longos segundos de hesitação, ele pareceu se dar
conta disso, pois abriu e fechou a boca várias vezes, mas não foi capaz
de emanar som algum. Não me manifestei; deixei que ele desse o próximo
passo, que recuperasse totalmente o controle sobre si, para que não se
sentisse ameaçado e se fechasse por completo. Para atingir pelo menos
parte de meu objetivo, eu precisava que ele sentisse uma certa
liberdade, um certo conforto diante de mim, o que já era um
pré-requisito bem complicado, dadas as circunstâncias. As adversidades
não me impediriam de tentar.
– O que você está fazendo aqui? – Edward enfim perguntou, com a voz
grave, e assim que o fez, percebi que ele agora já adotava uma postura
mais ofensiva, pronto para rebater meus argumentos que ainda nem haviam
sido expostos. Respirei fundo, tentando manter a calma, e dei um passo
em sua direção, mostrando que não me sentia intimidada. Ainda que não
fosse verdade, eu não o deixaria perceber. Não havia sido sempre assim
entre nós?
– Vim falar com você – respondi com serenidade, vendo-o
empertigar-se discretamente em reação à minha aproximação – Já que você
não atende as minhas ligações.
Nossos olhos não se desgrudaram desde o instante em que haviam se
encontrado, e a conexão parecia se fortalecer a cada palavra trocada. À
menção de minhas inúmeras chamadas ignoradas, o desafio em suas pupilas
pareceu fraquejar por um breve momento, denunciando que parte dele, e
essa parte, por menor que fosse, era uma minoria barulhenta, ainda
sentia algo por mim. Meu coração se encheu de esperança, mas logo em
seguida encolheu ao imaginá-lo fitando o visor do celular, lendo meu
nome inúmeras vezes na tela e, mesmo com tudo o que o impelia a atender a
ligação, desviando o olhar, deixando o aparelho de lado, e junto com
ele, todas as coisas que eu tinha para dizer.
– Você sabe por que eu não atendi – ele murmurou, mascarando a
fragilidade de suas palavras com a aspereza de sua voz. Não funcionou.
Já era tarde, ele já havia revelado demais.
Naquele lampejo de saudade que ele havia mostrado, inúmeros
sentimentos tomaram conta de mim ao mesmo tempo. Todas as vezes em que
me encontrei diante de uma lembrança nossa e simplesmente não pude
respirar, porque a simples hipótese de que aquelas lembranças eram tudo o
que restava de nós era insuportável, voltaram à minha mente num
turbilhão. Cada parte de minha vida tinha uma parte dele. Me perguntei
se ele se sentia da mesma forma, e compreender parte do motivo que o
levava a agir como uma pessoa completamente diferente a cada dia que
passava de repente fez um certo sentido. Em meus lampejos de saudade,
tudo o que eu queria era fugir de tudo aquilo, para não precisar mais
lidar com aquela dor. Ainda assim, eu não podia deixá-lo ir contra quem
ele era. A realidade parecia hostil, mas ignorá-la só traria mais dor.
– Eu sei – assenti devagar, dando outro passo em sua direção – Assim
como eu sei por que você tem insistido tanto em se comportar como um
completo estranho ultimamente.
Edward franziu a testa, demonstrando confusão, mas novamente, sua encenação não me convenceu.
– Eu não sei do que você está falando.
Ele sabia exatamente do que eu estava falando, apenas não queria me
ouvir. Infelizmente para ele, pela segunda vez (e sem dúvidas, não pela
última) naquela noite, eu não havia vindo para agradá-lo, mas sim, para
incomodá-lo, desestabilizá-lo. Só então ele mostraria o que realmente
importava.
– Ah, não? – indaguei, imitando sua expressão, porém adicionando um
certo cinismo à minha – Estranho... Porque eu podia jurar que todo esse
tempo que você tem passado com o seu pai trancado no escritório é parte
essencial desse seu plano de ser alguém que nós dois sabemos que você
não é.
Mesmo estando a uma distância razoável dele, pude vê-lo engolir em
seco, e quando seus olhos se arregalaram levemente, percebi que estava
vencendo a primeira batalha. Continuei atacando, disposta a derrubar
cada uma das barreiras que eu sabia que ele colocaria entre nós, porém
abandonando o sarcasmo. Eu não estava ali para piorar nossa situação,
que já estava por um triz. Eu só queria ouvir a verdade, e que ele a
ouvisse de si mesmo. Com tudo isso em mente, minhas próximas palavras
saíram de minha boca num tom dolorido, quase suplicante.
– Assumir os negócios da família? Você sempre disse que nunca faria isso... Por que está fazendo agora?
Ainda com os olhos fixos em mim, ele piscou algumas vezes, digerindo minha pergunta, e com um certo pânico na voz, respondeu.
– Como você sabe disso?
Soltei o ar que havia prendido involuntariamente durante todo o
tempo em que aguardei por uma resposta, e ainda que já soubesse que ela
não seria de meu agrado, foi difícil ouvi-lo confirmar as suspeitas de
todos.
– Então é verdade? – soprei, buscando algum vestígio de mentira em
seus olhos, desejando que ele não tivesse acabado de destruir minhas
esperanças – Edward, como você tem coragem?
– Coragem de quê? De cuidar do que é da minha família? – ele
rebateu, rapidamente recuperando-se do impacto que a extensão de meu
conhecimento lhe causara – Desde quando isso é errado?
– Desde quando isso significa abrir mão da sua vida pra viver outra,
uma que você nunca quis! – exclamei, avançando mais um passo em sua
direção. Ele fechou os olhos, nitidamente nervoso.
– Antes eu era um moleque – ele rosnou, quebrando contato visual ao
virar o rosto – Não sabia o que era certo, e mesmo que soubesse,
preferia tomar o caminho oposto. Mas agora...
Sua frase permaneceu incompleta no ar por alguns segundos, até que eu insisti em sua continuação.
– Mas agora o quê? Agora você cresceu, e decidiu que não quer mais brincar?
Não pude conter a indignação que fluía por todo o meu corpo numa
velocidade alucinante, mantendo meus músculos tensos e meus olhos
vidrados em seu rosto, que, como se esbofeteado pela intensidade com a
qual minhas palavras foram ditas, se voltou para mim. Sua expressão
estava esvaziada de qualquer ofensa agora que ele entendia o que sua
resposta significara para mim, e ostentava apenas remorso.
– Não foi o que eu quis dizer – ele falou, baixo, conforme um leve pânico se instaurava em seu olhar.
Não me importei com suas desculpas disfarçadas. Eu não havia ido até
lá para machucá-lo, mas na primeira resposta próxima à sinceridade que
havia conseguido arrancar dele, havia me machucado mais do que poderia
imaginar.
Ele não podia ter dito aquilo... Cuspido aquelas palavras como se
fossem veneno, como se nada do que tivesse acontecido antes daqueles
malditos três meses tivesse valido a pena. Eu não podia permitir que ele
dissesse aquilo sobre mim, sobre nós, sobre tudo. Segurando as lágrimas
de raiva que começavam a arder em meus olhos, venci a distância ainda
existente entre nós e disse tudo o que ele precisava e merecia ouvir.
– Você acha que está agindo como um homem de verdade, não é? Que só
porque agora está fazendo o que os outros julgam certo, está se
redimindo pelo que fez de errado antes... Pois você quer saber o que eu
acho? Isto é, se a minha opinião ainda vale alguma coisa pra esse novo
homem que está na minha frente agora, já que eu não passo de uma pirralha idiota, não é?
Edward travou o maxilar ao me ouvir usar o apelido que ele tanto
insistia em empregar ao se referir a mim, em tom carinhoso, de uma forma
pejorativa, mas não ousou me interromper, o que apenas alimentou minha
revolta.
– Eu acho que você não passa de um garotinho assustado, que não sabe
lidar com responsabilidades e se esconde no primeiro canto que
encontra. Porque é exatamente isso o que você está fazendo, é exatamente
isso o que você sempre faz: erra, se afasta de tudo que possa te
lembrar desse erro, e erra de novo. Qual foi o erro dessa vez? O fato de
eu não te amar o suficiente para ignorar os seus erros, assim como você
faz?
– Eu estou fazendo isso por você! – ele explodiu, segurando meus braços firmemente – Eu quero ser uma pessoa melhor por você! É a única coisa que importa pra mim... Será que você não vê?
Não me movi, incapaz de esboçar qualquer reação a não ser uma surpresa entorpecente, paralisante. Por mim?
Minha mente repetia aquelas duas palavras como se estivesse rodando um
disco riscado, no qual a mesma parte havia sido tocada tantas vezes que
já não fazia mais sentido. Observei seu rosto se contorcer a poucos
centímetros do meu, o calor da discussão nos distraindo de nossa luta
contra o campo magnético que sempre nos levava de volta ao outro, fosse
fisicamente, fosse emocionalmente, e esperei. Não havia mais nada que eu
pudesse fazer a não ser esperar por uma explicação, e a ele, não
restava outra opção a não ser abrir o jogo. Claramente contra sua
vontade, ele respirou fundo, acalmando os ânimos, e começou a falar.
– Quando você foi embora dessa casa, sem sequer conseguir olhar pra
mim... Foi como se eu estivesse morrendo por dentro. Nos primeiros dias,
tudo que eu sentia era dor, uma dor tão horrível... Mas depois, a dor
passou, e levou tudo com ela. Nada mais importava. Eu estava vazio,
indiferente a tudo. E por mais que eu soubesse que era errado, eu me
deixei dominar por essa sensação de dormência... Era mais fácil do que
lidar com a agonia monstruosa que me sufocava toda vez que eu estava
trancado em algum lugar da casa à noite, pensando em você feito um
doido, querendo mais do que tudo poder ouvir a sua voz... E o celular
tocava, como se você adivinhasse que eu precisava de você e não pudesse
ir para a cama sem realizar meu desejo.
Senti uma lágrima rolar por meu rosto, inconsciente de que meus
olhos estavam sequer lacrimejando. A cada palavra que ele dizia, eu me
transportava ainda mais do momento presente para o passado, relembrando
como tudo aquilo havia doído... Ouvi-lo dizer que a mesma aflição o
havia atingido só reforçava minha percepção de minha própria dor,
fazendo-me senti-la novamente, em dobro.
– E a cada dia que passa, tem sido mais difícil me manter nesse
universo alternativo onde tudo é mais fácil... Meus momentos de paz são
cada vez mais raros. Mas eu não posso mais voltar atrás. Eu não posso
ignorar o que está aqui, bem diante dos meus olhos. Eu não sou mais o
mesmo de três meses atrás, não sou mais o mesmo de três minutos atrás,
nem nunca vou ser. Tudo o que eu sou agora é um punhado de perguntas sem
resposta, de espaços em branco que precisam ser preenchidos. Quem sou
eu de verdade? Se eu não pude nem admitir que criei uma vida, muito
menos lidar com a responsabilidade de cuidar dela, por todos esses
anos... Que tipo de pessoa eu sou? Que tipo de pessoa eu posso ser pra
você?
Seus olhos, que durante todo o tempo se mantiveram baixos, fechados
ou inquietos em qualquer outro lugar que não fosse meu rosto, enfim
repousaram sobre os meus, sua pergunta ardendo sob o olhar dilacerado
que eu sustentava enquanto ainda absorvia tudo o que havia ouvido. Por
mim... Ele queria ser uma pessoa melhor por mim. Por mais que eu me
sentisse aliviada ao saber que ele ainda me amava tanto quanto antes, eu
não me sentia feliz por isso. Se me amar trazia tanto sofrimento, eu
preferia que ele me esquecesse.
O problema, no entanto, era que, me amando ou não, a situação
continuava difícil... Ben ainda precisava de um pai, ou pelo menos da
ideia de um. E Edward precisava de um motivo para ocupar essa posição...
Um motivo que não fosse eu. Se ele estava decidido a mudar, que mudasse
por si mesmo, não por mim, nem por Ben, nem por qualquer outra pessoa.
Não seria justo com ele, nem comigo, nem com ninguém.
Mas como? Como eu poderia fazer com que ele buscasse a motivação
necessária dentro de si, se nem eu mesma conseguia reunir coragem para
dar a ele a liberdade que a situação exigia? Eu não queria liberá-lo. Eu
não podia liberá-lo... Não achava que era forte o bastante para me desfazer da única coisa pela qual eu havia lutado até aquele momento.
Ainda assim, as palavras fluíram por meus lábios, ainda que o resto de meu corpo permanecesse inerte.
– Eu sinto muito... Eu nunca quis machucar você.
Edward retribuiu meu olhar conflituoso com um misto de confusão e
medo. No fundo, percebi que ele sabia o que estava por vir, mas preferiu
tentar manter-se o mais alheio possível enquanto eu não desse voz à
realidade e a permitisse encurralá-lo. No entanto, já não havia mais
como fugir. Nós dois estávamos contra a parede, e teríamos que lidar com
a situação da única maneira que nos permitiria escapar com a menor
quantidade de efeitos colaterais possível: a certa. Sem mais caminhos
fáceis, sem mais fantasias.
– Eu nunca quis que você sofresse por mim. E eu sinto muito por não
perceber que, ao tentar manter você comigo, tudo o que eu fiz foi te
causar mais sofrimento... Eu sinto muito por não perceber que eu preciso
te deixar em paz.
Respirei fundo, sentindo minha angústia crescer a cada segundo
dentro do peito e, sem mais espaço para se expandir, transbordar
livremente por meus olhos. Então era essa a dor que ele havia enfrentado
ao terminar tudo comigo naquela noite? Como ele havia conseguido se
manter de pé? Minhas pernas pareciam sustentar o peso do mundo, prestes a
ceder a qualquer minuto. As palavras, no entanto, continuavam saindo,
irrefreáveis. E, por mais que doesse admitir, certas. Aquele era meu
único conforto, mesmo que eu não pudesse senti-lo ainda.
– Eu pensei que pudesse lutar essa guerra com você... Que estando ao
seu lado, você seria mais forte. Mas tudo o que eu fiz até agora foi te
atrapalhar... Desviar seu foco do que realmente importa. Isso tudo...
Não tem nada a ver comigo. Essa história começou muito antes de eu
sequer sonhar em entrar na sua vida. Eu não tenho direito algum de
interferir. E se eu tenho sido a sua razão para olhar para trás e
enfrentar tudo, de que adianta todo o esforço por uma causa, se o motivo
é completamente outro? De que adianta você assumir um filho por mim?
Não vai ser a minha vida a principal afetada por isso. Não sou eu quem
vai acordar todos os dias e encontrar uma criança esperando por afeto e
cuidado... Eu vou continuar a mesma. Quem vai ter a vida totalmente
revirada é você. E se você não decidir fazer isso por você mesmo, então
eu prefiro que você não faça isso por ninguém.
Parei de falar por um momento para conter um soluço, que escapou
apesar de meus esforços, e ergui uma mão trêmula, ao perceber que os
olhos dele estavam cheios de lágrimas que ele lutava parar segurar, para
enxugar uma que era pesada demais para obedecer. Apesar da tristeza, me
sentir livre para tocá-lo de forma tão espontânea depois de tanto tempo
trouxe um breve sorriso ao meu rosto.
– Se você acha que não consegue, então volte atrás e viva o resto de
sua vida sem pensar duas vezes. Mas se existe um fio de coragem aí
dentro pra respirar fundo e seguir em frente, agarre-se a ele. Agarre-se
ao que você, e somente você, acredita ser certo... Me deixe ir embora.
Mordi a parte interna de meu lábio inferior ao pronunciar aquela
última frase, disposta a enfrentar calada o desespero que elas me
causaram. Edward baixou os olhos por um instante, fazendo com que outra
lágrima rolasse por seu rosto, e esboçou um sorriso amargurado. Suas
palavras me pegaram completamente desprevenida.
– Eu te amo.
Seu olhar se ergueu até o meu, mais sincero e transparente do que
nunca. Um arrepio percorreu minha espinha ao sentir a verdade de sua
confissão em cada centímetro de minha pele. Todo o ar deixou meus
pulmões, e minhas lágrimas triplicaram. Estava doendo muito.
– Não diz isso – pedi, fazendo o possível para não desmoronar em seus braços e deixar tudo aquilo para trás.
– Você mesma disse que eu devo me agarrar ao que acredito ser
certo... – ele retrucou, intensificando seu aperto em meus braços quando
eu fechei os olhos para evitar os dele – Você foi a coisa mais certa
que já me aconteceu. Nada vai mudar isso.
Hesitei por mais algum tempo antes de voltar a encará-lo, sentindo
meu rosto lavado pelas lágrimas e meu coração destruído. Analisei suas
feições, tão próximas, tão familiares, disposta a gravar cada detalhe em
minha memória para não permitir que qualquer minúcia se perdesse
durante o tempo em que ficássemos separados. Forçando um sorriso
torturado, enfim respondi com as únicas palavras que aguardavam para
serem ditas em minha garganta.
– Eu também te amo.
Edward retribuiu meu sorriso, ambos tentando ser fortes pelos dois, e
ainda que tudo que eu desejasse fosse que aquele momento durasse para
sempre, para que eu nunca tivesse que me afastar dele outra vez, não
pude poder mais suportar aquela situação. Apoiando minhas mãos em seu
tronco, levei meus lábios até seu rosto e beijei o canto de sua boca,
levando muito mais tempo que o necessário para enfim recuar e deixar a
sacada, sem me permitir olhar para trás.
Respirei fundo, colocando as mãos na cintura, e cerrei os olhos
de forma ameaçadora, focada no objeto de minha fúria. Dei uma rápida
olhada para Emilly, erguendo uma sobrancelha, e perguntei:
- Pronta?
Recebendo um aceno positivo, imitei seu gesto e voltei a fitar a
mala gigantesca no chão do quarto. Numa péssima tentativa de imitar um
lutador de kung fu, soltei um grito nasalado e me joguei sobre a bagagem
que se recusava a fechar, esmagando-a para que Emilly pudesse fechar o
zíper. Deslizei o antebraço sobre a testa quando nossa missão foi
cumprida, fingindo enxugar um suor que não existia, e ambas rimos de
minha infantilidade.
- Valeu – ela agradeceu, enquanto eu levantava para ajudá-la a colocar a mala em pé.
- Sem problemas... Mas pra que levar tanta coisa? Vocês só vão ficar lá por três dias!
Ela virou a cabeça lentamente em minha direção, me lançando um olhar cético.
- Sim, com os pais dele analisando cada movimento meu – ela
respondeu, revirando os olhos – Ficar na casa dos sogros requer muitos
cuidados, ainda mais quando eles não vão muito com a sua cara, e eu
pretendo tomar todas as precauções possíveis.
- Fala sério, não pode ser tão ruim assim.
- Ah, pode – ela retrucou com um risinho tenso, lutando com o
puxador da mala que parecia emperrado e se recusava a subir – Você não
sabe a sorte que tem de ter uma sogra que te adora.
O clima instantaneamente ficou pesado quando ela se deu conta do que
havia dito. Devolvi seu olhar surpreso com um igualmente perplexo,
chocada com seu comentário inesperado.
- Ella, me desculpa... Eu nem me toquei do que tava falando...
- Tudo bem – interrompi, engolindo em seco e tentando não parecer tão abalada – Não tem problema.
Emilly cobriu a boca com as mãos por um instante, envergonhada de
sua momentânea falta de tato, e logo estendeu seus braços em minha
direção, me prendendo num abraço apertado.
- Tem certeza de que vai ficar bem sem a gente? – ela murmurou, com a
voz preocupada – Tô me sentindo péssima por viajar no mesmo fim de
semana dessa convenção de trabalho da sua mãe... Se você quiser, eu
fico. O Ewan vai entender, juro.
Neguei com a cabeça, agradecendo mentalmente o fato de que ela não
podia ver o esforço que eu estava fazendo para não me deixar
entristecer, agora nítido em meu rosto.
- Eu vou ficar bem – respondi baixo, só então conseguindo devolver o
abraço – Talvez esse tempo sozinha até me ajude a me acostumar com tudo
isso... Sabe, não ter que repetir 20 vezes pra minha mãe que estou bem,
e que não estou com fome, e que ela não precisa comprar sorvete pra mim
quase todo dia...
Emilly riu um pouquinho, me libertando de seu aperto e analisando minha expressão, agora já mais contida.
- Ela só faz isso porque se preocupa – ela disse, apertando minha
bochecha como se eu fosse um bebê – Faz só duas semanas que vocês...
Conversaram, e você não é muito de dividir o que tá sentindo... Pelo
contrário, você se fecha, e a gente fica sem saber direito como agir.
Então resolvemos te paparicar.
Retribuí o sorriso, balançando negativamente a cabeça e deixando a
tristeza de lado. Eu teria tempo suficiente para chorar minhas mágoas
enquanto todos estivessem viajando, não precisava fazer isso na frente
de Emilly e estragar seu feriado com meu drama.
- Fique tranquila, vai ficar tudo bem por aqui – falei com toda a
convicção que pude, rapidamente levando a conversa para um tópico menos
delicado – Você, em compensação, vai precisar de toda a ajuda que puder,
e tenho certeza de que aquelas pantufas das Meninas Super Poderosas que
você esqueceu de colocar na mala serão uma bela arma contra os pais do
Ewan. Vai que o pai dele é o Macaco Louco...
- Ha, ha, tô morrendo de rir – ela rosnou com um sorrisinho falso,
indo até o lado da cama e pegando as pantufas estampadas com a cara
briguenta da Docinho – Agora seja útil e me ajude a enfiá-las aqui
dentro, vai.
Fiz uma careta em resposta, e assim que fiz menção de abrir o zíper, a campainha tocou.
- Eu atendo! – exclamei de imediato, correndo para a porta e me esquivando da tarefa árdua de lidar com a bagagem superlotada.
- Você me paga, garota! – ouvi Emilly reclamar, rindo de minha
idiotice. Abri a porta sem nem checar o olho mágico, determinada a não
desperdiçar um segundo sequer agora que a pizza que havíamos pedido
havia chegado. Meu estômago comemorou a presença do entregador com
alguns roncos medonhos, mas despencou de seu lugar habitual assim que
meus olhos se deram conta de quem realmente aguardava sobre o tapete de
boas-vindas de Emilly.
- Andrew?
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